CANAL DA AÇÃO CULTURAL

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O papa que poderia ter sido e que um dia pode vir a ser.

  O que Martini queria dizer ao papa. Artigo de Georg Sporschill 

 


As críticas do cardeal Martini na sua última conversa eram como que um testamento, escrito por amor. Com firmeza, punha algumas pessoas no centro: os pobres, aqueles que buscam a fé, as mulheres e os estrangeiros. A eles ele havia se dedicado com todas as forças pela vida inteira. Não por acaso as suas demandas receberam o nome de "Agenda Martini" para o conclave.

A opinião é do jesuíta austríaco Georg Sporschill, coautor, junto com o cardeal Carlo Maria Martini, do livro Diálogos Noturnos em Jerusalém (Paulus, 2008). O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 25-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 8 de agosto de 2012, a pedido do cardeal Martini, visitei-o em Gallarate junto com Federica Radice Fossati Confalonieri; foi o nosso último encontro. Celebramos a Santa Missa entre quatro pessoas na capela da casa dos jesuítas. Ele rezava, já com um fio de voz, por uma missão em favor das crianças de rua da Transilvânia, pelos jovens e pela mulher comprometidos naquele país.

No momento da Comunhão, ele quis se levantar e, com uma ajuda, conseguiu. Nunca me esquecerei dessa cena, de como ele estava profundamente prostrado e, ao mesmo tempo, forte. A confiança desse homem provinha de outro mundo. Depois da missa, eu o levei de volta ao quarto na sua cadeira de rodas. Era o quarto modesto de um jesuíta.

No falar, o cardeal buscava fatigantemente cada palavra. Compadecia-se da Igreja que ele também amava. Somente a sua fé em Deus explica por que ele deixou as instituições eclesiásticas e o rico mundo ocidental com palavras de crítica radical.

"A Igreja deve reconhecer os próprios erros e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando pelo papa e pelos bispos". Com fé, confiança, coragem. Para permitir a entrada do Espírito Santo na Instituição, o cardeal sugeriu ao papa e aos bispos que se cercassem de pessoas próximas dos jovens e dos pobres. Naturalmente, entre estas, também devem haver mulheres. Somente com homens idosos seria impossível.

A principal preocupação do cardeal era a perda de credibilidade que a Igreja havia sofrido junto a vastas fileiras de pessoas. Não se tratava de leis ou de dogmas, mas sim da capacidade de assistência, de escuta. "Sabemos nos ocupar das perguntas dos jovens, dos problemas das famílias ampliadas, dos não crentes?", perguntava, duvidoso.

Aqueles que estão distantes da Igreja têm uma mensagem para nós, defendia ele. Mais do que a coincidência de pontos de vista, interessavam-lhe o diálogo, a busca comum. O seu pensamento admitia as contradições, assim como a Bíblia.

Várias vezes pediu que a Igreja se desculpasse pelo que havia afirmado no passado sobre o tema da sexualidade. Com uma coragem como a havia mostrado João Paulo II quando, em Israel, pediu perdão aos judeus pelos pecados da Igreja. A esse respeito, ele escreveu ao Papa Bento XVI pessoalmente. Muitas vezes citava a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, um papa ao qual estava particularmente ligado. Ele afirmava, depois, que a medicina e a psicologia tinham muito de novo a nos dizer sobre a família e a sexualidade.

As críticas expressadas pelo cardeal na sua última conversa eram como que um testamento, escrito por amor. Com firmeza, punha algumas pessoas no centro: os pobres, aqueles que buscam a fé, as mulheres e os estrangeiros. A eles ele havia se dedicado com todas as forças pela vida inteira. Não por acaso as suas demandas receberam o nome de "Agenda Martini" para o conclave.

O cardeal Martini era muito próximo do Papa Bento XVI. Por mais de uma década, como cardeais, foram membros da Congregação para a Doutrina da Fé e também tinham a mesma idade. Porém, os dois homens tinham sentimentos e pensamentos muito diferentes.

No entanto, a lealdade do cardeal idoso ao Santo Padre era indiscutível. Era junho de 2012 quando o cardeal Martini viu pela última vez o Papa Bento XVI, em visita a Milão. Naquela ocasião, ele voltou ao palácio que havia deixado em 2002. Ele o fez em cadeira de rodas, e o papa se inclinou sobre ele. Quando quase ordenou o papa a se acomodar, este, contra todas as regras ditadas pelo protocolo, se sentou, e o bispo idoso pôde reconhecer nos seus olhos cansados a fragilidade do coetâneo. A coragem, assim, o abandonou, não podia fazer-lhe as propostas que ele havia preparado. Apenas lhe disse: "Santo Padre, rezo pelo senhor e pela Igreja".

O cardeal contou, comovido, sobre aquele encontro com o pontífice e acrescentou com um toque de humor: "O alfaiate do papa deve ser um artista para fazer com que os hábitos lhe caiam bem". A sua enfermeira lhe perguntou então: "Eminência, o senhor, fraco e idoso, deixaria o ofício de papa ou de bispo?". O cardeal deve ter respondido: "Sim, eu me retiraria para Montecassino". Era como se tivesse aberto a estrada para a grande e surpreendente decisão do pontífice.

O que diz a "Agenda Martini" sobre o perfil do novo papa?

Deve ser um otimista como João XXIII: não defender o que é antiquado, mas abrir as portas da Igreja ao novo. Deve ter muita compreensão humana e confiança no futuro.

Deve ter amor como Paulo VI. Talvez ele tinha um excessivo temor das possibilidades oferecidas pela tecnologia, pela medicina e pela liberdade social, mas era uma preocupação pelo ser humano, como gostava de sublinhar o cardeal Martini quando criticava a encíclica Humanae Vitae. Ele mesmo podia testemunhar isso, pois Paulo VI o convidava muitas vezes como um amigo a discutir questões bíblicas.

Deve ser decidido como João Paulo II. O cardeal Martini contava que o papa polonês o tinha nomeado, natural de Turim, como arcebispo de Milão, sem ouvir as objeções. Ele tinha decidido e ponto final. Com a sua força, conseguia mover muitas coisas no Vaticano e na política eclesiástica. Uma força que fez cair até mesmo a cortina de ferro.

O que o novo papa deve ter dos seus antecessores? Pode construir sobre o que fez Bento XVI, que queria preservar a Igreja dos perigos, queria manter todos na comunidade eclesiástica, até mesmo a Fraternidade São Pio X. Apontava para as elites, que via nos novos movimentos.

Agora é preciso o agere contra, um movimento voltado às paróquias, à revalorização das Igrejas locais e a escuta do mundo inteiro, como o cardeal Martini fazia corajosamente. Bento XVI, no seu clericalismo, era impulsionado por forças centrípetas; agora são necessárias energias centrífugas.

Com um bispo proveniente do Novo Mundo, da África ou das Filipinas, o Espírito Santo pode nos surpreender mais do que com um defensor do Velho Mundo. Quão jovem, estrangeiro ou de cor deve ser hoje um instrumento do Espírito Santo.

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Abaixo, mensagem de D. Hélder 


 e uma canção oração.
Canta Francisco AQUI
Análises e cobertura do Site Carta Maior sobre a renuncia de Bento XVI. AQUI

 Análises e cobertura do Site Brasil de Fato sobre a renuncia de Bento XVI. AQUI
 

Manifesto da Jornada de Lutas da Juventude Brasileira

“Queremos reformas estruturais que garantam um projeto de desenvolvimento social e que abram caminhos ao socialismo. Lutamos por um desenvolvimento sustentável, solidário, que rompa com os valores do patriarcado, que assegure o direito universal à educação, ao trabalho decente, à liberdade de organização sindical, à terra para quem nela trabalha e o direito à verdade e à justiça para nossos heróis mortos e desaparecidos”. O texto integra o Manifesto da Jornada de Lutas da Juventude Brasileira e é subscrito por mais de vinte movimentos que organizaram o encontro Juventude no Brasil realizado no Sindicato dos Químicos de São Paulo nesse final de semana.

Eis o Manifesto.

Unir a Juventude Brasileira:
“Se o presente é de luta, o futuro nos pertence”!
Che Guevara
As entidades estudantis, as juventudes do movimento social, dos trabalhadores/as, da cidade, do campo, as feministas, as juventudes partidárias, religiosas, LGBT, dos coletivos de cultura e das periferias se unem por um ideal: avançar nas mudanças e conquistar mais direitos para juventude.

É preciso denunciar o extermínio da juventude negra e das periferias a quem o estado só se apresenta através da violência. O mesmo abandono se dá no campo, que alimenta a cidade e segue órfão da Reforma Agrária e dos investimentos necessários à permanência da juventude no campo, de onde é expulsa devido à concentração de terras, à ausência de políticas de convívio com o semiárido. Já na cidade, a juventude encontra a poluição, a precarização no trabalho, a ausência do direito de organização sindical, os mais baixos salários e o desemprego, fatores ainda mais graves no que diz respeito às jovens trabalhadoras.

Essa é a dura realidade da maioria da População Economicamente Ativa no país, e não as mentiras da imprensa oligopolizada, que foi parceira da ideologia do milagre brasileiro e cúmplice da ditadura, ao encobrir torturas e assassinatos e sendo beneficiária da monopolização ainda vigente. É coerente que ela se oponha à verdade e à justiça, que se cale ante as torturas e ao extermínio dos pobres e negros dos dias de hoje, que busque confundir e dopar a juventude, envenenando a política, vendendo-nos inutilidades, reproduzindo os valores da violência, da homofobia, do machismo e da intolerância religiosa. mas eles não falam mais sozinhos: estamos aqui pra fazer barulho.

Queremos cidades mais humanas em vez de racismo, violência e intolerância. Queremos as garantias de um estado laico, democrático, inclusivo, que respeite os Direitos Humanos fundamentais, inclusive aos nossos corpos, à liberdade de orientação sexual e à identidade de gênero, num ambiente de liberdade religiosa.

Queremos reformas estruturais que garantam um projeto de desenvolvimento social e que abram caminhos ao socialismo. Lutamos por um desenvolvimento sustentável, solidário, que rompa com os valores do patriarcado, que assegure o direito universal à educação, ao trabalho decente, à liberdade de organização sindical, à terra para quem nela trabalha e o direito à verdade e à justiça para nossos heróis mortos e desaparecidos.

Para enfrentar a crise é preciso incorporar a juventude ao desenvolvimento do país. Incluir o bônus demográfico atual exige uma política econômica soberana que valorize o trabalho, a produção, o investimento e as políticas sociais, e não a especulação. Esse é o melhor cenário para tornar realidade os direitos que queremos aprovados no estatuto da juventude.

Iniciamos aqui uma caminhada de unidade e luta por reformas estruturais que enterrem o neoliberalismo e resguardem a nossa democracia dos retrocessos que pretendem impor os monopólios da mídia, ou golpes institucionais como os que ocorreram no Paraguai e em Honduras.
Desde essa histórica Plenária Nacional, unidos e cheios de esperança, convocamos a juventude a tomar em suas mãos o futuro dos avanços no Brasil, na luta pelas seguintes bandeiras consensualmente construídas:

1.Educação: financiamento público da educação
1.1.  10% PIB para Educação Pública
1.2.  100% dos royalties e 50% do fundo social do Pré-sal para Educação Pública
1.3   2% do PIB para Ciência, Tecnologia e Inovação
1.4   Por uma política permanente de valorização das bolsas de pesquisa
1.5   Democratização do acesso e da permanência na universidade
1.6   Pela expansão e a qualidade da educação do campo
1.7   Cotas raciais e sociais nas universidades estaduais
1.8   Curricularização da extensão universitária
1.9   Regulação e ampliação da qualidade, em especial, do setor privado

2. Trabalho – trabalho decente
2.1  Redução da jornada de trabalho sem redução de salário! 40 horas já!
2.2  Condições dignas de trabalho decente
2.3  Políticas que visem a conciliação entre trabalho, estudos e trabalho doméstico
2.4  Direito de organização sindical no local de trabalho
2.5  Contra a precarização promovida pela terceirização
2.6  Pela igualdade entre homens e mulheres no trabalho e entre negros/as e não negros/as

3.Por avanços na democracia brasileira - Reforma Política
3.1 Pela Reforma política
3.2 Combate às desigualdades sociais e regionais
3.3 Contra a judicialização da politica e a criminalização dos movimentos sociais
3.4 Pela auditoria da Divida Publica
3.5 Contra o avanço do capital estrangeiro na aquisição de terras e na Educação
3.6 Reforma agrária
3.7 Aprovação do Estatuto da Juventude

4. Diretos sociais e humanos: Chega de violência contra a juventude
4.1 Contra o extermínio da juventude negra
4.2 Contra a redução da maioridade penal
4.3 Garantia do direito à Memória, à Verdade e à Justiça e pela punição dos crimes da Ditadura
4.4 Garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, como à autonomia sobre o próprio corpo e o combate à sua mercantilização, em especial das jovens mulheres
4.5 Pelo fim da violência contra as mulheres
4.6 Pela mobilidade urbana e o direito à cidade
4.7 Pelo direito da juventude à moradia
4.8 Desmilitarização da policia
4.9 Respeito à diversidade sexual, aos nomes sociais e criminalização da homofobia
4.10 Apoio à luta indígena e quilombola e das comunidades tradicionais
4.11 Contra a internação compulsória e pelo tratamento da dependência química através de uma política de redução de danos
4.12 Pelo direito ao lazer à cultura e ao esporte, inclusive com a promoção de esportes radicais

5. Democratização da comunicação de massas
5.1. Universalização da internet de banda larga no campo e na cidade
5.2 Políticas públicas para grupos e redes de cultura
5.3  Apoio público para os meios de comunicação da imprensa alternativa
5.4. Apoio ao movimento de software livre

Assinam este documento:
ABGLT,
ANPG;
APEOESP;
Associação Cultural B;
Centro de Estudos Barão de Itararé;
CONAM,
CONEM,
Consulta Popular;
ECOSURFI;
Enegrecer;
FEAB;
Federação Paulista de Skate;
Fora do Eixo;
Juventude da CTB;
Juventude da CUT;
Juventude do PSB;
Juventude do PT;
Juventude Pátria Livre;
Levante Popular da Juventude;
Marcha Mundial das Mulheres;
MST;
Nação Hip Hop Brasil;
Pastoral da Juventude,
PJMP,
PCR;
REJU;
REJUMA;
UBES;
UBM,
UJS;
UNE;
UPES,
Via Campesina Brasil.

Este evento se dá por causa do maravilhoso espetáculo "Gonzagão, a Lenda", adaptação de João Falcão, que chega a BH no dia 09 de março. É imperdível. Por isso convidei João Falcão, Bené Fonteles e Carlos Marcelo para este debate. Não percam, vejam o flyer anexo. Abraços, Afonso Borges

Mais informaçõesAQUI

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

As Vozes Da Midia E A Construção Da Sergipanidade

setenoveaudiovisual
Direção e Produção:
- Bianca de Oliveira Silveira
- Pedro Ivo de Moraes Marques
- Thayza Darlen Machado

Dir. de Fotografia / Câmera / Montagem:
- Arthur Pinto

Som Direto
- Baruch Blumberg

Trilha Sonora
- Forró de Cobra Verde (Cobra Verde)

Este Documentário é fruto do trabalho de comclusãoo do Curso de Jornalismo na Universidade Federal de Sergipe em Dez/2011 pelos estudantes Bianca de Oliveira Silveira, Pedro Ivo de Moraes Marques e Thayza Darlen Machado, orientados por Luciano Correa.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Cicatrizes indeléveis na pele da memória!

Acima de tudo, a liberdade

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Adiberto lembrou a nódoa, na coluna da Infonet. Há quase 40 anos, no dia 20 de fevereiro de 1976, a Operação Cajueiro deixaria uma marca indelével na história política de Sergipe. Para alguns militantes da liberdade, no entanto, as cicatrizes seriam ainda mais dolorosas e acompanhariam o corpo maltratado pelos carrascos do golpe de 64 vida afora, pelo menos nos episódios em que restou vida. É o caso de Milton Coelho, que denuncia no passo claudicante que ofereceu a intimidade de sua casa, nos interstícios da memória, uma geração de mutilados.

O encontro foi mediado há um bom par de janeiros pelo Professor Dudu, presidente da Central Única dos Trabalhadores, então empenhado na construção de um Memorial dedicado às atrocidades perpetradas pelo Regime Militar em Sergipe. O sindicalista enxergava no exemplo de Milton Coelho muito mais do que o personagem esmaecido nas páginas de uma história que ainda está para ser contada. Coberto de razão, Dudu não subtrai ao símbolo as feridas do homem de carne e osso.

Milton Coelho concorda com o jornalista Zuenir Ventura quando ele afirma que o ano de 64 ainda não acabou. Segundo ele, não é possível admitir mácula de sombra sobre a História. “Eu sou partidário de que é preciso identificar todas as ocorrências. É preciso identificar todos os que participaram daquelas atrocidades para que as novas gerações sejam municiadas e não permitam que tudo se repita”.

As atrocidades que Milton Coelho menciona eram praticadas com método. Ele conta que os jagunços envolvidos no desbaratamento da célula sergipana do Partido Comunista Brasileiro (PCB), objetivo maior da Operação Cajueiro, se esmeravam numa espécie de ritual.

“Quando levados pelos sequestradores e entregues aos responsáveis pela fase que antecedeu a formalização do Inquérito Policial Militar, os presos políticos, que na maioria já tinha uma borracha circulando os olhos, receberam “tratamento” de impacto, começando pela troca da roupa que vestiam por um macacão com um número no peito e um capuz. Aqueles que eram considerados mais comprometidos na organização da resistência à ditadura militar receberam o que era chamado de “tratamento especial”, incluindo torturas com a cabeça submergida em depósito com água, por várias vezes, pontapés nas costelas em ambos os lados, choques elétricos nas mãos e no pênis, além da ameaça de assassinato, quando, circulando uma corda nos tornozelos do preso, afirmavam que iriam suicidá-lo”.

O próprio Milton Coelho foi objeto do ritual macabro, e carrega na carne as marcas da violência. Além de cicatrizes e uma costela quebrada, ele foi condenado a tatear o mundo pelo resto de seus dias. A retina deslocada, responsável por uma deficiência visual que até hoje não conheceu cura, lhe impôs prejuízos econômicos e dificuldades pessoais, mas não abateram seu interesse pela vida.
 
Atento e forte, Milton Coelho acompanha as transformações da conjuntura política e acredita que, a despeito de incoerências pontuais, o campo político da esquerda precisa se manter unido para garantir os avanços necessários à manutenção da democracia.
Nas palavras do próprio Milton: “Nós temos uma população que, infelizmente, ainda não tem consciência política. Isso pode facilitar o retrocesso. A minha preocupação consiste em não dar chance aos inimigos dos trabalhadores e da liberdade”.
Acima de tudo, a liberdade

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Adiberto lembrou a nódoa, na coluna da Infonet. Há quase 40 anos, no dia 20 de fevereiro de 1976, a Operação Cajueiro deixaria uma marca indelével na história política de Sergipe. Para alguns militantes da liberdade, no entanto, as cicatrizes seriam ainda mais dolorosas e acompanhariam o corpo maltratado pelos carrascos do golpe de 64 vida afora, pelo menos nos episódios em que restou vida. É o caso de Milton Coelho, que denuncia no passo claudicante que ofereceu a intimidade de sua casa, nos interstícios da memória, uma geração de mutilados.

O encontro foi mediado há um bom par de janeiros pelo Professor Dudu, presidente da Central Única dos Trabalhadores, então empenhado na construção de um Memorial dedicado às atrocidades perpetradas pelo Regime Militar em Sergipe. O sindicalista enxergava no exemplo de Milton Coelho muito mais do que o personagem esmaecido nas páginas de uma história que ainda está para ser contada. Coberto de razão, Dudu não subtrai ao símbolo as feridas do homem de carne e osso.

Milton Coelho concorda com o jornalista Zuenir Ventura quando ele afirma que o ano de 64 ainda não acabou. Segundo ele, não é possível admitir mácula de sombra sobre a História. “Eu sou partidário de que é preciso identificar todas as ocorrências. É preciso identificar todos os que participaram daquelas atrocidades para que as novas gerações sejam municiadas e não permitam que tudo se repita”.

As atrocidades que Milton Coelho menciona eram praticadas com método. Ele conta que os jagunços envolvidos no desbaratamento da célula sergipana do Partido Comunista Brasileiro (PCB), objetivo maior da Operação Cajueiro, se esmeravam numa espécie de ritual.

“Quando levados pelos sequestradores e entregues aos responsáveis pela fase que antecedeu a formalização do Inquérito Policial Militar, os presos políticos, que na maioria já tinha uma borracha circulando os olhos, receberam “tratamento” de impacto, começando pela troca da roupa que vestiam por um macacão com um número no peito e um capuz. Aqueles que eram considerados mais comprometidos na organização da resistência à ditadura militar receberam o que era chamado de “tratamento especial”, incluindo torturas com a cabeça submergida em depósito com água, por várias vezes, pontapés nas costelas em ambos os lados, choques elétricos nas mãos e no pênis, além da ameaça de assassinato, quando, circulando uma corda nos tornozelos do preso, afirmavam que iriam suicidá-lo”.

O próprio Milton Coelho foi objeto do ritual macabro, e carrega na carne as marcas da violência. Além de cicatrizes e uma costela quebrada, ele foi condenado a tatear o mundo pelo resto de seus dias. A retina deslocada, responsável por uma deficiência visual que até hoje não conheceu cura, lhe impôs prejuízos econômicos e dificuldades pessoais, mas não abateram seu interesse pela vida.

Atento e forte, Milton Coelho acompanha as transformações da conjuntura política e acredita que, a despeito de incoerências pontuais, o campo político da esquerda precisa se manter unido para garantir os avanços necessários à manutenção da democracia.
Nas palavras do próprio Milton: “Nós temos uma população que, infelizmente, ainda não tem consciência política. Isso pode facilitar o retrocesso. A minha preocupação consiste em não dar chance aos inimigos dos trabalhadores e da liberdade”.
 

Com Yoani, os anos 60 estão de volta

Por um erro besta meu, acabei apagando o post original, com seus mais de 250 comentários. Mil perdoes. 
Leia a noticia e os novos comentários.  AQUI

A visita da blogueira cubana Yoani Sanchéz ao Brasil, comprova: somos um país fantástico, o único do mundo livre que preserva suas tradições, sem medo do ridículo!
Parte do país está no século 21; há algumas manchas de século 19, nos rincões mais profundos. Mas a parte mais visível, a parte pública, está em plena... Guerra Fria. É como o japonês do Gordo e do Magro. Que ficou anos na trincheira, por não ter sido informado sobre o fim da Guerra.
É um regalo para os saudosistas, para os que cultivam a memória dos anos 60, o rock, a foto do Che.
***
Em outros tempos, o Departamento de Estado norte-americano bancava Svetlana Alliluyeva, a filha de Stalin que abjurou o comunismo e a Rússia. Vivia-se o auge da guerra fria e da disputa entre dois modelos políticos.
Agora, em pleno 2013 (!), na era da Internet e das comunicações, na era da globalização, vinte e tantos anos após a queda do Muro de Berlim, após o desmanche da União Soviética, o país da saudade e da nostalgia revive... a Guerra Fria. Em vez do patrocínio nobre do Departamento de Estado americano à filha do maior ditador soviético, a fina flor dos exilados cubanos bancando a blogueira cubana Yoani que não quer deixar a ilha.
O grande fantasma comunista são dois velhinhos em final de vida, em uma ilha distante, que não representa ameaça nem aos seus vizinhos de fronteira e só interessa aos cubanos de Miami e – lógico – à fina flor da intelectualidade midiática brasileira.
***
Monta-se um show formidavelmente ridículo, recorrendo a uma fórmula tão velha quanto andar para frente: provoca-se e, como dois e dois são quatro, atrai-se a ira de jovens radicais – sem nenhuma expressão política maior, a não ser colocar sua energia jovem para fora. Vinte jovens na faixa de vinte anos fazendo barulho. E, aí, senadores vetustos, colunistas indignados, comunicadores-humoristas alertam para o perigo da ditadura comunista, do fim da liberdade de expressão. Recria-se a velha guerra sem quartel do bem contra o mal na tenda espírita do Twitter
Daqui a pouco o fantasma do Padre Peyton ressurgirá em um perfil do Facebook, amaldiçoando os corruptos da terra com a fantasma da excomunhão.
***
Como lembrou Jair Fonseca, comentarista do meu blog: "na sociedade do espetáculo (a sociedade capitalista, segundo Debord) estamos em pleno reino do simulacro - a cópia da cópia, segundo Platão. Para Fredric Jameson, o pós-moderno é a lógica cultural do capitalismo tardio, com o retorno de fantasmagorias sob a forma da paródia e do pastiche. E não apenas na arte..."
***
No dia em que um historiador se debruçar sobre esses tempos loucos, não perceberá diferença entre os alucinados do Twitter e a velha mídia. Constatará que o grande personagem desses tempos de realidade virtual é o professor Hariovaldo. Trata-se de um personagem fictício, que tem um blog representante dos "homens de bem". Comparando com outros colunistas, o historiador terá enorme dificuldade em separar a paródia do parodiado.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Secretária destaca avanços na política cultura de SE em entrevista




Os avanços na política cultural da gestão de Marcelo Déda à frente do Governo de Sergipe deram o tom da entrevista concedida pela titular da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), Eloísa Galdino, ao Jornal da Cidade, publicada na edição do último domingo, 17. A realização de eventos pioneiros, como o Festival Sergipano de Teatro, a promoção de diversas atividades de capacitação dos agentes culturais do Estado e o investimento na recuperação do patrimônio histórico de Sergipe foram alguns dos destaques.
Logo quando o jornal chegou às bancas e casas dos assinantes, muitas pessoas se manifestaram nas redes sociais. O diretor da Casa Rua da Cultura, Lindemberg Monteiro, por exemplo, elogiou no facebook a entrevista da secretária. “A Secult, com todas as dificuldades de orçamento, tem se esforçado para criar e apoiar projetos que valorizem a produção cultural e o reconhecimento do valor e importância da nossa identidade cultural e intelectual. Quem ganha com esse trabalho é a sociedade”, disse.
Na mesma plataforma, o ator e produtor teatral, Pedro Carregosa, exaltou a postura da atual gestão da Secult no que diz respeito ao relacionamento com a classe artística. “Sobretudo no que se refere ao diálogo, é um avanço e tanto. Isso sem falar nas realizações físicas, como as dos museus e outros espaços, e as imateriais, que são os grandes eventos. Parabéns”, escreveu Pedro.
Leia a íntegra da entrevista abaixo:
Jornal da Cidade – A Secult possui um dos menores orçamentos do Governo. Como é trabalhar com tamanha limitação financeira?
Eloísa Galdino – Quando o governador me convidou para assumir a pasta da Cultura, encarei como um grande desafio e assim tem sido. A limitação financeira para a execução da política cultural é um obstáculo comum em todo o país, e digo isso com propriedade, pois fui presidente do Fórum Nacional de Secretários da Cultura por dois anos e pude acompanhar a realidade dos outros Estados. Porém, com força de trabalho, construção de parcerias - inclusive com o Governo Federal -  e diálogo permanente com os agentes culturais, já conseguimos produzir resultados expressivos para o desenvolvimento cultural do Estado, por isso posso dizer com tranqüilidade que nenhum outro governador fez tanto pela cultura sergipana como Marcelo Déda.
Jornal da Cidade – Qual desses resultados é o mais marcante na sua avaliação?
Eloísa Galdino – Foram muitos, mas destaco aqui a mudança na seleção de projetos apoiados pelo Governo via Secretaria da Cultura. Antes da posse do governador Marcelo Déda, a distribuição de recursos era feita,  em muitos dos casos, na base do 'relacionamento' prejudicando artistas e produtores que não possuiam relação com as pessoas da Secult.  O que nós fizemos? Passamos a fazer seleções públicas através de editais, seguindo um modelo bem-sucedido implantado pelo ministro Gilberto Gil durante o primeiro mandato de Lula como presidente do Brasil. Assim, todos os agentes culturais do Estado passaram a ter oportunidade de acessar recursos do poder público através de processos transparentes e técnicos, sem necessidade de abordar o gestor com o pires na mão. E é com orgulho que posso dizer que já ultrapassamos a casa dos R$ 3 milhões em editais que abrangem várias áreas, da literatura ao audiovisual.
Jornal da Cidade – E nesse contexto, deu para contemplar todos os segmentos culturais?
Eloísa Galdino – Nós temos resultados para mostrar em praticamente todas as áreas. Nas artes cênicas, por exemplo, atuamos com inúmeras oficinas de capacitação na capital e interior, aprimoramos a Semana Sergipana de Dança e fizemos com que o Festival Sergipano de Teatro, antiga demanda da classe, se tornasse realidade em 2010 e como um evento consolidado no nosso calendário – em março realizaremos a terceira edição. Com os músicos sergipanos, proporcionamos aperfeiçoamento profissional através do projeto ‘Música (in) Formação’, além da promoção do Verão Sergipe, onde a maioria das atrações é sergipana, do Festival de Novas Composições de Forró, e transformamos o Arraiá do Povo, que acontece anualmente na Orla da Atalaia, numa festa junina onde apenas forrozeiros sergipanos se apresentam.  Esses são apenas alguns exemplos das muitas ações da Secult e vamos avançar em outras linguagens que ainda precisam de mais ações, como é o caso da literatura e das artes visuais. Além disso, temos um edital permanente de intercâmbio cultural, que permite aos artistas sergipanos das mais diferentes linguagens a possibilidade de difundir seu trabalho fora de Sergipe e até do Brasil.
Jornal da Cidade – Muitos prédios em Sergipe tombados como patrimônio histórico e cultural visivelmente precisam de reparos em sua estrutura...
Eloísa Galdino – Sim, sabemos das necessidades estruturais e de restauração do nosso patrimônio  e o Governo do Estado não está de braços cruzados diante da situação, afinal, foi na gestão de Marcelo Déda que mais se investiu na recuperação do patrimônio histórico e cultural de Sergipe: foram mais R$ 40 milhões, oriundos do tesouro do Estado e de parcerias com o Governo Federal. Foi através desse investimento que contribuímos para que a Praça São Francisco, em São Cristóvão, fosse tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, transformamos a antiga sede do governo no belo Palácio-Museu Olímpio Campos e instalamos no antigo Atheneuzinho a mais moderna unidade museal do Nordeste que é o Museu da Gente Sergipana. Esses são apenas alguns exemplos da atuação do governo nesta área, porque se citarmos a criação do Campus da Cultura, em Laranjeiras, inaugurado com direito à presença do então presidente Lula, vamos perceber que investimos mesmo foi na revitalização de toda a cadeia de cultura.
Claro que ainda há muito o que ser feito,  e uma equipe de engenheiros e arquitetos do PAC das Cidades Históricas, que em Sergipe passa a ser coordenado pela Secult nesse ano, já trabalha para dar continuidade a essa ação marcante do poder público que vem recuperando o nosso patrimônio histórico. São Cristóvão e Aracaju já receberão obras este ano.
Jornal da Cidade – O empréstimo do Proinveste que o Governo do Estado tenta aprovar na Assembléia Legislativa contribuiria diretamente para projetos da Secult?
Eloísa Galdino – Com certeza. A sociedade sergipana está com grandes expectativas em torno dos bons frutos que os recursos do Proinveste possibilitarão ao nosso Estado e com a cultura não é diferente. Parte do montante, algo em torno de R$ 8 milhões, será investida na reforma e modernização do Arquivo Público do Estado de Sergipe e da Biblioteca Pública Epifânio Dória.
Jornal da Cidade – As figuras que integram a classe artística costumam ser atuantes, combativas e formadoras de opinião. A relação do poder público com ela é turbulenta?
Eloísa Galdino – Não classifico como turbulenta porque é natural que haja confronto de idéias quando o modelo de construção do nosso trabalho está baseado no diálogo com aqueles que produzem  cultura no nosso Estado. Através do debate com os artistas, produtores, estudiosos e técnicos, elaboramos projetos marcantes para diversas áreas. Foi assim com a área do teatro, da música, da dança, do cinema, da literatura, etc. E continuará sendo assim, pois agentes culturais e poder público, ao contrário do que muitos pensam, não estão em lados opostos. Todos estamos no mesmo barco e defendo a mesma bandeira: a da cultura sergipana.  

Governo e classe artística discutem formato do III Festival de Teatro


O diálogo com os agentes culturais sergipanos é uma marca consolidada da atual gestão da Secretaria de Estado da Cultura (Secult). E com o Festival Sergipano de Teatro (FEST), que já nasceu a partir de uma construção coletiva entre poder público e classe artística, não poderia ser diferente. Por isso, representantes da Secult se reuniram com atores e produtores teatrais de Sergipe para discutir o formato da terceira edição do evento, que terá início no próximo mês de março.
O encontro aconteceu na tarde de segunda-feira, 18, no Teatro Atheneu, um dos espaços que receberá espetáculos do III FEST. A secretária da Cultura, Eloisa Galdino, conduziu a reunião e destacou a importância de mais uma vez o poder público e a sociedade civil atuarem juntas na realização de um grande projeto que prioriza, acima de tudo, a difusão da cultura sergipana.
"Mesmo atravessando uma situação financeira delicada, o Governo de Sergipe garantirá a realização da terceira edição do Festival Sergipano de Teatro, um evento que nasceu na nossa gestão, mas leva a assinatura de todos aqueles que militam pelo desenvolvimento das artes cênicas em Sergipe, já que é uma ação que surgiu a partir de uma antiga demanda da classe artística", garantiu.
O coordenador das artes cênicas da Secult, Isaac Galvão, também esteve na reunião e falou sobre alguns pontos que foram colocados pela classe em um relatório enviado à Secult. "Viemos aqui dispostos a discutir item por item que foi contestado pela classe, para mais uma vez garantir um diálogo aberto com os que fazem teatro em Sergipe", afirmou.
Após a leitura e votação de todos os pontos levantados pelos representantes da classe artística, ficou definido que o Festival Sergipano de Teatro contará, na sua terceira edição, com 16 grupos que serão selecionados via edital, outros dois convidados, além de três que virão de outros estados intercambiar com os grupos sergipanos.
A edição 2013 terá um diferencial: o festival abrirá espaço, também, para a área circense, com a presença de seis grupos que serão encaixados na programação. Além disso, serão realizadas mesas redondas ao decorrer do evento e uma exposição ao final de sua realização.
"Além do que foi definido aqui, avaliaremos todas as propostas do ponto de vista financeiro e orçamentário e construiremos tudo que estiver ao nosso alcance para realizar mais um festival de muito sucesso e que satisfaça o público e os artistas sergipanos", encerrou a secretária Eloisa.
(Por Maíra Andrade, da Ascom/Secult)

O que o ensino da Arte pode aprender com a arte?

Em cinco capítulos, vamos discutir a relação entre o ensino de Arte na escola e a produção artística contemporânea, trazendo os exemplos de projetos reais, realizados em escolas brasileiras. O objetivo é provocar a reflexão sobre como as transformações do campo da arte refletem na Educação.

Fonte: Revista Nova Escola

 AQUI

Carlos Alexandre Azevedo foi provavelmente a vítima mais jovem a ser submetida a violência por parte dos agentes da ditadura.

Programa nº 2000

Morrer aos poucos
Para não esquecer

Por Luciano Martins Costa em 18/02/2013 no programa nº 2000

Ouça aqui 
Morrer aos poucos
O técnico de computadores Carlos Alexandre Azevedo morreu no sábado (17/02), após ingerir uma quantidade excessiva de medicamentos. Ele sofria de depressão e apresentava quadro crônico de fobia social.
Era filho do jornalista e doutor em Ciências Políticas Dermi Azevedo, que foi, entre outras atividades, repórter da Folha de S. Paulo.
Ao 40 anos, Carlos Azevedo por fim a uma vida atormentada, dois meses após seu pai ter publicado um livro de memórias no qual relata sua participação na resistência contra a ditadura militar.
“Travessias torturadas” é o título do livro, e bem poderia ser também o título de um desses obituários em estilo literário que a Folha costuma publicar.
Carlos Alexandre Azevedo foi provavelmente a vítima mais jovem a ser submetida a violência por parte dos agentes da ditadura.
Ele tinha apenas um ano e oito meses quando foi arrancado de sua casa e torturado na sede do Dops paulista.
Foi submetido a choques elétricos e outros sofrimentos. Seus pais, Dermi e a pedagoga Darcy Andozia Azevedo, eram acusados de dar guarida a militantes de esquerda, principalmente aos integrantes da ala progressista da igreja católica.
Dermi já estava preso na madrugada do dia 14 de janeiro de 1974, quando a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury chegou à casa onde Darcy  estava abrigada, em São Bernardo do Campo, levando o bebê, que havia sido retirado da residência da família.
Ela havia saído em busca de ajuda para libertar o marido.
Os policiais derrubaram a porta e um deles, irritado com o choro do menino, que ainda não havia sido alimentado, atirou-o ao chão, provocando ferimentos em sua cabeça.
Com a prisão de Darcy, também o bebê foi levado ao Dops, onde chegou a ser torturado com pancadas e choques elétricos.
Depois de ganhar a liberdade, a família mudou várias vezes de cidade, em busca de um recomeço.
Dermi e Darcy conseguiram retomar a vida e tiveram outros três filhos, mas Carlos Alexandre nunca se recuperou.
Aos 37 anos, teve reconhecida sua condição de vítima da ditadura e recebeu uma indenização, mas nunca pôde trabalhar regularmente.
Aprendeu a lidar com computadores, mas vivia atormentado pelo trauma.
Ainda menino, segundo relato da família, sofria alucinações nas quais ouvia o som dos trens que trafegavam na linha ferroviária atrás da sede do Dops.
Para não esquecer
O jornalista Dermi Azevedo poderia ser lembrado pelas redações dos jornais no meio das especulações sobre a renúncia do papa Bento 16.
Ele é especialista em Relações Internacionais, autor de um estudo sobre a política externa do Vaticano, e doutor em Ciência Política com uma tese sobre Igreja e democracia.
Poderia também ser uma fonte para a imprensa sobre a questão dos Direitos Humanos, à qual se dedicou durante quase toda sua vida, tendo atuado em entidades civis e organismos oficiais.
Mas seu testemunho como vítima da violência do estado autoritário é a história que precisa ser contada, principalmente quando a falta de memória da sociedade brasileira estimula um grupo de jovens a recriar a Arena, o arremedo de partido político com o qual a ditadura tentou se legitimar.
A morte de Carlos Alexandre é a coroa de espinhos numa vida de dores insuperáveis, e talvez a imposição de tortura a um bebê tenha sido o ponto mais degradante no histórico de crimes dos agentes do Dops.
A imprensa não costuma dar divulgação a casos de suicídio, por uma série controversa de motivos.
No entanto, a morte de Carlos Alexandre Azevedo suplanta todos esses argumentos.
Os amigos, conhecidos e ex-colegas de Dermi Azevedo foram informados da morte de seu filho pelas redes sociais, através de uma nota na qual o jornalista expressa como pode sua dor.
A imprensa poderia lhe fazer alguma justiça.
Por exemplo, identificando os integrantes da equipe que na noite de 13 de janeiro de 1974 saiu à caça da família Azevedo.
Contar que Dermi, Darcy e seu filho foram presos porque os agentes encontraram em sua casa um livro intitulado “Educação moral e cívica e escalada fascista no Brasil”, coordenado pela educadora Maria Nilde Mascellani.
Era um estudo encomendado pelo Conselho Mundial de igrejas.
Contando histórias como essa, a imprensa poderia oferecer um pouco de luz para os alienados que ainda usam as redes sociais pare pedir a volta da ditadura.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Projeto Negócios em Economia Criativa


O Sebrae, dentro das atividades do Projeto Negócios em Economia Criativa, estará realizando no dia 20 de fevereiro, às 19 horas, um encontro com empresas e empreendedores culturais que estejam interessados em participar de ações de capacitação operacional, gestão organizacional e financeira, marketing e  acesso a mercados.

Durante o encontro serão discutidas as demandas dos segmentos que serão atendidos inicialmente pelo projeto:
- Música
- Arquitetura/design/moda
- Audiovisual/artes visuais/digital
- Expressões culturais

O Projeto Negócios em Economia Criativa tem como objetivo promover a inovação e a profissionalização das empresas e empreendedores culturais, por meio da melhoria da gestão dos negócios e do aumento da capacidade empreendedora. É realizado pelo Sebrae, em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura, Funcaju e Senac.

Data: 20 de fevereiro de 2013
Horário: 19h
Local: Sede do Sebrae, à Av.Tancredo Neves

Importante: É necessário confirmar participação até o dia 18 de fevereiro, preenchendo  formulário e enviando de volta para o e-mail: Para solicitar o formulário, escreva para mercia.menezes@se.sebrae.com.br

Veja mais: 


Economia criativa: reportagens do Câmara Hoje vão mostrar as inovações e o empreendedorismo do brasileiro
Arquitetura, moda, livros, jogos para celular, música, arte e antiguidades: o que eles têm em comum? Desde o início dos anos 2000 esses são alguns dos setores da chamada economia criativa. O tema ainda é novo e pouco conhecido no Brasil, mas lá fora já faz cerca de 20 anos que governos e sociedade civil se deram conta da importância desse setor econômico. Economia criativa é o tema da série que o Câmara Hoje exibe nesta semana. Na primeira reportagem, você vai ver que esse novo setor da economia representou 4% do PIB nacional no ano passado. Foram quase R$ 166 bilhões.

Créditos/Câmara Hoje:
Fabricio Rocha - Repórter
Tico Magalhães - Capitão do grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro
Ronaldo Fraga - Estilista
Heloísa Rocha - Publicitária e criadora da Lamblamb
Lucas Fragomeni - Criadora da Bebop
Cristiano Braga - Diretor de projetos de Economia Criativa da Apex
Dep. Jandira Feghali (PT-RJ)
Claudia Leitão - Secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura
AQUI
O Brasil costuma ser bem reconhecido no mundo pela criatividade dos seus artistas na música, no cinema e na pintura. Apesar disso, ironicamente o país é classificado como de baixa intensidade criativa quando se fala em inovação nessa indústria, que envolve conhecimento, pesquisa e inovação. Estudos recentes do IPEA e da Unesco mostram que o Brasil precisa melhorar os negócios que envolvem a chamada “Economia Criativa”.
Para debater o assunto, o Ponto de Vista recebe a economista Ana Carla Fonseca Reis, doutora em Economia Criativa que tem percorrido o país dando palestras e oficinas. Ela explica como pequenas cidades e microrregiões podem criar serviços a partir de suas tradições locais; além de inovar em criações já reconhecidas e economicamente viáveis.
Série: Economia Criativa
Tema: Economia Criativa e Empreendedorismo
Convidado: Ana Carla Fonseca Reis, consultora em Economia Criativa e diretora da Garimpo Soluções.
Apresentador: Getsemane Silva
Direção: Guilherme Bacalhao
AQUI

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O abacaxi da cultura - Entrevista com Hermano Vianna

Para antropólogo, governo tem dificuldade em implantar uma política cultural, mas a anticultural é corriqueira

11 de fevereiro de 2013 | 19h 56
Fonte: Ivan Marsiglia, de O Estado de S. Paulo
Com a sua peculiar estridência, a assim chamada "nova classe média" ocupa, além de aeroportos e manchetes de economia, o centro da cena cultural brasileira. É o carnaval do Ai se eu te Pego, do tchererê-tche-tchê, da Beyoncé paraense Gaby Amarantos, da redenção do funk carioca e também da tragédia da Gurizada Fandangueira. Nessa explosão de sentidos figurados e literais, que marcas deixarão impressas na cultura nacional os cerca de 40 milhões de "ex-pobres" - na jocosa definição de MC Papo - que ascenderam ao mercado na última década?
Na opinião do antropólogo Hermano Vianna, antes de mais nada vale a pena remeter para a discussão da cultura a crítica feita pelo ex-presidente FHC ao termo nova classe média. "Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses", diz o irmão mais velho do guitarrista Herbert Vianna, dos Paralamas, e um dos mais importantes pesquisadores musicais do País. "O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade brasileira ainda não analisada devidamente."
Aos que denunciam um suposto empobrecimento geral das manifestações artísticas no País, o doutor em antropologia social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - que também é consultor do programa Esquenta!, de Regina Casé, na Globo -, lança mão de uma metáfora, a do disco voador: trata-se de um olhar que sobrevoa o País sem conexão com o mundo de baixo que agora penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes. E reedita, em tom de provocação, a enfática defesa que faz há anos da música mais popular dos morros cariocas. "Encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade."
Na última década, o Brasil vive a ascensão de uma nova classe média e a chamada inclusão pelo consumo. De que forma essa transformação se expressa no âmbito da cultura?

Em seu artigo de domingo passado no Estado, Fernando Henrique Cardoso escreveu que "a dissolução do conceito de classes em 'categorias de renda' chamadas classes A, B, C, D, ou nesta 'nova classe média', dificilmente se sustenta teoricamente". Falou mais como sociólogo do que como ex-presidente ou político da oposição. Eu, como antropólogo, orientando de Gilberto Velho - por sua vez orientando de Ruth Cardoso, corajosa o suficiente para, durante a ditadura militar, aceitar que Gilberto fizesse tese sobre o consumo de drogas entre jovens da velha classe média -, posso afirmar que tal dissolução também não se sustenta culturalmente. Quando dizemos "nova classe média" estamos pensando num grupo extremamente heterogêneo em termos de estilos de vida e visões de mundo. Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses, etc. O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade brasileira, ainda não analisada devidamente.

Em que termos falta analisá-la?

Ela não é apenas uma transformação econômica. Aconteceu ao mesmo tempo em que outras mudanças profundas se processavam. Na cultura, as consequências da revolução digital foram imediatas. O modelo de negócios da "indústria cultural", que funciona na base do broadcast, poucos-para-muitos, ainda não conseguiu se adaptar ao mundo das redes, muitos-para-muitos. Por exemplo, o mundo das gravadoras de discos, que comandava o mercado mundial de música popular, praticamente desmoronou. Milhares de pequenos estúdios surgiram em todas as periferias. Seus produtos são distribuídos via internet e fazem sucesso sem precisar de rádio, imprensa, TV. Em 2006, quando escrevi o texto para lançamento do programa Central da Periferia, na Globo, deixei claro: somos a mídia de massa correndo atrás da música mais popular nas ruas brasileiras que nunca esteve na TV antes. Descrevi a grande mídia como um disco voador, sobrevoando o País, sem conexão com o mundo "de baixo". De lá para cá, nada mudou tanto assim: apenas o barulho de fora (Ai se eu te Pego), amplificado por milhões de alto-falantes de som automotivo ou de celulares ligados em redes sociais, já penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes.

O sr. quer dizer que há um incômodo com a democratização da cultura?

O melhor texto sobre isso é o do Otávio Velho dizendo que não há mais grotões no Brasil. Ele criticava a opinião de que os votos que elegeram Lula vinham de grotões ignorantes e sem conexão com a realidade contemporânea. Quem não viaja pelo interior não deve se dar conta disso. Quando piso em qualquer biboca, longe das capitais, logo encontro grupos articuladíssimos, tocando projetos sociais e culturais muitas vezes com repercussão internacional. E há também uma politização geral nesse interior que não é só de esquerda, e quase sempre não tem lugar definido no espectro ideológico tradicional. Ela é alternativa à vida político-partidária, parte do "disco voador", e produziu importantes organizações como a Cufa (Central Única de Favelas) e o AfroReggae. O pop periférico e a politização cultural periférica - que não mantêm relações harmoniosas entre si - são as principais novidades culturais brasileiras das duas últimas décadas.

E as políticas de cultura do País, estão dando o melhor a essa população ou apenas reforçando estereótipos?

Políticas de cultura não devem "dar" nada para a população. Isso se parece com promessa velha de político acostumado ao ar condicionado no disco voador: "Vou levar cultura para as favelas". A imagem tradicional era a favela como vazio cultural que devia ser iluminada com arte de fora. Os próprios favelados já deram a resposta: "Qual é, mané, o que não falta aqui é cultura". As políticas de cultura, então, precisam trabalhar junto com o que já acontece em cada lugar, possibilitando uma melhor circulação de informações e contribuindo para ampliações de horizontes de maneiras de fazer arte, que foram criadas muitas vezes aos trancos e barrancos (ou dentro de barracos). Outro dia vi um censo cultural realizado com jovens de áreas "ex-pobres" - expressão inventada pelo MC Papo, rei do reggaeton mineiro - do Rio revelando uma maioria absoluta que nunca tinha ido a um show musical. Conheço bem as áreas onde a pesquisa foi aplicada e sei que essa rapaziada frequenta baile funk com muitas apresentações ao vivo. Aquilo não é considerado show musical? Por quem, o pesquisador ou o pesquisado? Show musical é o quê? Só o que acontece no Citibank Hall?

O sr. foi um defensor dos CEUs e dos Telecentros da então prefeita Marta Suplicy. O que achou do Vale Cultura, apresentado pela agora ministra?

O Vale Cultura não foi inventado pelo ministério Marta. Tem longa história de formulação e debate, anterior até à data de 2009, quando foi para o Congresso. Na época, o então ministro Juca Ferreira já precisou atacar a opinião de que o dinheiro "não deveria ser usado em baile funk". Juca seguiu o pensamento de Gilberto Gil, que numa de suas melhores frases como ministro disse: "Cultura ruim também é cultura". É isso, não tenho o que acrescentar porque sei que Gil e Juca sabem que funk não é cultura ruim. Gil até já cantou, em declaração de amor para o Rio, "quero ser teu funk".

Então o sr. concorda com a resposta da ministra aos críticos do Vale Cultura: 'Se quiser comprar revista de quinta categoria, pode' e 'compra porcaria quem quiser'?

É engraçado: quando a política deixa o mercado decidir como o incentivo vai ser usado, é acusada de sustentar cultura de mercado com dinheiro público. Quando quer corrigir "distorções do mercado", como o fato de a região Sudeste acabar com a maior porcentagem do dinheiro da Lei Rouanet, é acusada de dirigismo cultural. Parece que todos preferem o imobilismo - que o ministério não proponha política nenhuma. Não morro de amores pelo Vale Cultura, mas encaro sua implementação como uma experiência. Por que, de antemão, achar que ele vai ser usado só em porcaria? Essa é a imagem que temos do tal "povo", coitadinho, que precisa de nossa orientação para saber o que é bom. E se for assim, por que esses críticos não partem para a porta das fábricas para ensinar ao povo o que é bom, com serviço de van grátis direto para a Sala São Paulo?

A ida de Juca Ferreira, um baiano, para a Secretaria de Cultura paulistana de Fernando Haddad, lhe agradou?

Confesso que fiquei surpreso. Estamos acostumados a pensar a política estadual ou municipal de forma paroquial, como se só os locais pudessem lidar com realidades locais. Então foi surpresa boa: uma pessoa de fora pode descobrir maneiras novas para resolver velhos problemas já naturalizados pelos nativos. Mesmo quando entende as coisas de forma errada. Lembro a descoberta do tropicalismo pelos críticos estrangeiros nos anos 1990: eles falaram muita besteira, não captavam as sutilezas do nosso contexto, terrivelmente complexo para gringos. Mas aquilo me fez entender nosso passado musical com novos olhos, e tudo ficou ainda mais interessante. Espero que o mesmo aconteça com o diálogo entre o baiano Juca e os paulistanos, que sempre souberam acolher bem os baianos, a ponto de ninguém poder dizer com certeza se o tropicalismo é baiano ou paulistano. Mandei até uma sugestão, de que uma das primeiras ações do novo secretário deveria ser um encontro com a grande comunidade do samba paulistano.

E como vai a cultura em sua cidade, o Rio?

No Rio acontecem outras surpresas: uma pessoa de fora, o gaúcho Beltrame, impulsionou o projeto das UPPs. Por anos fui defender o funk e a possibilidade de realização dos bailes na Secretaria de Segurança - já que a Secretaria de Cultura nunca se pronunciava. Hoje, há uma nova era de projetos culturais. Bom sinal para a cidade, que agora, pós-tragédia em Santa Maria, terra do Beltrame, percebe como as coisas estavam descontroladas. Havia a tal da Resolução 013 que era sempre usada por policiais quando queriam fechar um baile. Tudo podia ser motivo: falta de saídas de emergência, banheiros, isolamento acústico, etc. Agora sabemos que mesmo os espaços culturais da prefeitura ou do Estado funcionavam contrariando regras de segurança. Por que só os bailes eram fechados?

E o carnaval? Nessa semana de exaltação e júbilo país afora, temos o que comemorar?

Este carnaval é do sertanejo, do arrocha, do funk paulistano. Ela é Top, do paulistano MC Bola, é a música mais tocada no rádio em Salvador, com versão bem local. Essa é a brincadeira musical preferida atualmente: os sucessos ganham versões em todos os ritmos do momento. E os estilos se misturam. Quem diria que o sertanejo iria virar música de balada? Quem diria que Campo Grande, Mato Grosso do Sul, iria se transformar na capital do pop brasileiro? Eu não entendia muito bem o mundo do sertanejo. Até que fui numa festa de fundo de quintal, bem familiar, em Campo Grande. Uma dupla tocava canções que eu nunca ouvira antes e todo mundo fazia coro, com emoção tão explosiva quanto no momento mais animado do bumbódromo de Parintins. Foi minha rendição: gosto de pop fake, mas também não resisto diante da autenticidade. Naquele momento, gostei por motivos antropológicos, o que me encantava era o amor que aquelas pessoas sentiam por aquela música. Estava claro que algo grande iria acontecer dali. Hoje gosto também por motivos musicais. Mas há outro aspecto interessante nessa brincadeira, que é bem mais que música. Ninguém, nem mesmo o fã mais "inculto", acha que Ai se eu te Pego é um clássico de Tom Jobim. Aquilo é outra coisa: um mote para festa, para animação coletiva. Começou com uma cantoria de meninas paraibanas viajando para a Disney, virou refrão para animar turistas em Porto Seguro e depois forró em Feira de Santana. Michel Teló transformou o resultado em canção pop, que já foi apropriada em vídeos em todo o planeta, como Gangnam Style. O que importa aí é o processo, a diversão agora, o riso solto, e não a obra-prima para ser venerada como fuga de Bach. É preciso julgar as duas coisas com critérios diferentes.

O sr. parece otimista, mas há alguns dias o sambista Zeca Pagodinho criticou o carnaval no Rio, disse que 'tudo foi roubado' e não se vê mais nem enfeites nas ruas de periferia. Sambas-enredo falam de países distantes e cavalos manga-larga por exigência de patrocinadores. E até o elogiado renascimento dos bloquinhos de rua, em contraponto ao megashow mercantilizado do sambódromo, já é promovido por marcas de cerveja. A massificação põe em risco a riqueza da festa?

O carnaval é uma festa moderna, que cresceu mesmo a partir do final do século 19. O primeiro desfile de escola de samba aconteceu em 1929, e o patrocínio dos jornais foi importante para sua popularização e "oficialização". Antes era algo menor no calendário cultural do Rio. A grande festa da cidade era o Divino, que ocupava o Campo de Santana durante várias semanas. Desapareceu. Nem por isso o Rio deixou de ser o Rio. Tudo muda. E muitas novidades importantes têm origem em desrespeito a tradições. O baiano Hilário queria botar seu terno de Reis nas ruas cariocas. Notando que o 6 de janeiro não era dia de folia no Rio, resolveu sair no carnaval. Deu nos ranchos, nas escolas de samba e assim por diante. Se fosse fiel às regras tradicionais, a cultura da cidade hoje seria bem diferente. Eu adorava o carnaval no Centro do Rio no início dos anos 80. Cacique de Ramos e Bafo da Onça desfilavam gigantescos, empolgadíssimos. Aquilo foi minguando, melancolicamente. Houve ano que não escutei nenhum som de blocos na rua. Hoje há cada dia mais blocos, cada vez maiores. A garotada carioca, de todas as classes, voltou a ter no carnaval sua melhor festa. Você não gosta de blocos comerciais? Não se preocupe, há muitos outros que fogem do comércio. Neste ano vai ter até bloco que só canta marchinhas baseadas em tragédias gregas.

Há quem veja, no entanto, um empobrecimento nas manifestações artísticas de hoje, especialmente se lembrarmos do samba de raiz de Cartola e Pixinguinha, por exemplo. Não há em seu discurso uma certa correção política que impede a crítica?

Cito mais uma vez Gil: raiz para mim só de mandioca. Samba é música moderna, criada no início do século 20, inclusive com a invenção de instrumentos novos, como o surdo, criado a partir de tonéis industriais. Tudo muda, o tempo todo. Ficou mais pobre? A partir de que critério? Sei que o relativismo está fora de moda. Nem ligo: sou relativista incorrigível, cada vez mais radical. Constantemente me pego fazendo coro para Hêmon brigando com seu pai Creonte, em Antígona: "Guarda-te, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas". Não tem quem me convença que há um fundamento estético único a partir do qual podemos decretar o empobrecimento ou o enriquecimento das criações humanas. Mas digamos que há: então encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade. O tamborzão do funk salvou a música brasileira na virada do século 20 para o 21. É vanguarda mesmo, concretismo eletrônico afro-brasileiro. Mas para quem acha que hip hop não é música, ou que Stockhausen não é música, o que estou falando é delírio. Um consolo é saber que a produção da gravadora Motown um dia foi considerada por todos os críticos como lixo comercial sem futuro.

A que servem iniciativas suas como o programa Esquenta!, com Regina Casé?

Antes de qualquer outra coisa queremos fazer uma boa festa. Nas gravações do programa, os momentos que mais nos agradam são quando a plateia assume o controle e viramos espectadores da farra coletiva. Como em qualquer outra festa boa, para isso acontecer é preciso reunir gente que pensa diferente e não tenha preconceito diante das diferenças. Reunião só com gente que pensa igual não tem graça.

O Brasil deveria apostar num programa de inclusão social pela cultura?

Detesto a palavra inclusão por motivos que já comentei nas respostas anteriores: parece que a salvação do excluído - que não tem nada, é um vazio a ser preenchido por bom conteúdo - está na sua captura por um mundo que não é dele, não sua transformação em Outro. Partindo dessa premissa, a política cultural já seria de grande valor se não atrapalhasse o que já existe. O governo tem enorme dificuldade para criar e implantar política cultural. Mas política anticultural é corriqueira. Como a proibição dos bailes funk quando a música estava nascendo, empurrando-a para dentro de morros controlados pelo tráfico armado. O "funk proibidão" foi produto dessa ação anticultural do poder público.

Hoje começa em todo o Brasil a Campanha da Fraternidade, que terá como tema as juventudes!


Para contribuir com a discussão sobre o assunto, recomendamos a leitura da entrevista publicada na edição de fevereiro do jornal Mundo Jovem.

Entrevista com Priscila Casale, publicada na edição nº 433, fevereiro de 2013.



Nesta Campanha da Fraternidade 2013, o vídeo "Juventudes e seus caminhos", produzido pelo Mundo Jovem, é uma boa dica para iniciar os debates.

Veja o trailer: www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=wa-R51xFKmg

Adquira o seu: www.mundojovem.com.br/produtos/juventudes-e-seus-caminhos

Leia também:

Juventude - Opinião e Imagens  AQUI

O conflito de gerações na pauta de Haddad, AQUI
 

''Os jovens têm fome de um sagrado que não aliene''. Entrevista especial com Hilário Dick

“Quem convive com a juventude, sabe que ela gosta de “sair de si mesmo”. E quem vive isso, o faz gratuitamente”
Confira a entrevista.

“Se a Igreja não souber viver e ajudar a construir o discurso da ‘autonomia’, não afasta somente os jovens, mas os fiéis em geral”. A reflexão é de Hilário Dick (foto abaixo), jesuíta, que há 40 anos trabalha na evangelização da juventude. Segundo ele, o discurso religioso “deve ser para todos, mas a proposta de construção da autonomia precisa seguir o caminho da diversidade, onde prevaleça a postura do cuidado e não do controle”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele comenta a Jornada Mundial da Juventude, que acontece esse ano no Rio de Janeiro, e a Campanha da Fraternidade de 2013, que aborda a temática da juventude, enfatizando a necessidade de retomar a discussão acerca do cuidado e da autonomia dos jovens. “É preciso que a Igreja e toda a sociedade se encantem ou se re-encantem pela juventude. Isso significa usar muitos verbos, mas podemos resumi-los em três: estudar, amar, estar presente”, aponta. E ressalta: “Quem ‘cuida’, respeita a autonomia, o protagonismo, a personalidade de cada um. Uma mãe que ‘cuida’, não ‘abafa’ o/a filho/a. Deseja que ele/a seja ele/a. Dentro dessa ‘geografia’ coloca-se a criação da Comissão Episcopal para a juventude”.
Hilário Dick é graduado em Teologia pela Pontifícia Faculdade do Colégio Máximo Cristo Rei, e em Filosofia e em Letras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Mestre e doutor, também em Letras, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, é coordenador do Observatório Juvenil do Vale/Unisinos. Entre seus vários livros publicados, citamos Gritos silenciados, mas evidentes: jovens construindo juventude na história (São Paulo: Loyola, 2003) e Cartas a neotéfilo – Conversas sobre assessoria para grupos de jovens (São Paulo: Loyola, 2005). Junto de Carmem Lucia Teixeira e Lourival Rodrigues da Silva publicou Juventude: acompanhamento e construção de autonomia. É autor do Cadernos IHU número 18, intitulado Discursos à Beira dos Sinos. A emergência de novos valores na juventude: o caso de São Leopoldo.
Confira a entrevista. 
AQUI
 

Ministro espera que novo papa venha ao Brasil para Jornada da Juventude

Mariana Branco - Agência Brasil 13.02.2013 - 18h23 | Atualizado em 13.02.2013 - 18h31
Brasília - Em meio à repercussão sobre a renúncia do papa Bento XVI, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou hoje (13) a Campanha da Fraternidade 2013, com o tema juventude. A campanha deste ano é considerada preparatória para a Jornada Mundial da Juventude, que ocorrerá no Rio de Janeiro em julho e deveria contar com a presença de Bento XVI. O secretário-geral da CNBB e bispo auxiliar de Brasília, dom Leonardo Steiner, disse que o afastamento de Bento XVI “não vai atrapalhar” o evento. O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, afirmou ter esperança de que durante a jornada haja a visita do novo papa, previsto para ser eleito entre 15 e 20 de março, segundo o Vaticano.
“A jornada [da juventude] adquire um caráter especial frente à renúncia do papa e a eleição de um novo, que esperamos possa estar presente”, disse Gilberto Carvalho. Segundo ele, o governo está “fortemente engajado” nos preparativos para o encontro e providenciando a facilitação e a gratuidade dos vistos para entrada no Brasil. Até o momento, não está definido quem será o representante da Igreja Católica no evento, que reunirá jovens de todas as nacionalidades. Mais cedo, o papa Bento XVI enviou mensagem ao Brasil sobre a jornada.
Até o início da Jornada Mundial da Juventude, agendada de 23 a 28 de julho, o foco da Igreja Católica no país deve ser a Campanha da Fraternidade. A CNBB organiza a campanha desde 1964, cada ano com um tema diferente. Antes da edição deste ano, a juventude já havia sido o tema da iniciativa em 1992. Segundo dom Leonardo Steiner, a campanha de 2013 discutirá questões como preconceito racial, alta taxa de homicídios entre os jovens, gravidez na adolescência e o uso de drogas.
Ao fim da campanha, no domingo que antecede a Páscoa, a coleta de doações nas missas em todo o país é destinada ao Fundo Nacional de Solidariedade, administrado pela Cáritas Brasileira. De acordo com dados divulgados pela organização, a arrecadação somou, no ano passado, R$ 13,6 milhões destinados aos projetos relacionados à saúde, tema de 2012.
Edição: Carolina Pimentel
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