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sábado, 29 de março de 2014

Golpe de 64: 'Marcha da Família com Deus pela Liberdade' completa 50 anos; saiba quem a financiou e dirigiu

À ESPERA DA VERDADE
21/03/2014 - 06h00 | Felipe Amorim e Rodolfo Machado/Última Instância | São Paulo
Tidas como protagonistas do movimento que depôs João Goulart, organizações femininas lideradas por mulheres de classe média eram, na verdade, financiadas e instruídas pelos homens da elite empresarial-militar que queriam derrubar Jango

Há 50 anos, em 19 de março de 1964, era realizada na cidade de São Paulo a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Estima-se que entre 500 mil e 800 mil pessoas partiram às 16h da Praça da República em direção à Praça da Sé, no centro, manifestando-se em resposta ao emblemático comício de João Goulart, seis dias antes, defendendo suas Reformas de Base na Central do Brasil. Passaram à história como as genuínas idealizadoras e promotoras da marcha organizações femininas e mulheres da classe média paulistana. No entanto, por trás deste aparente protagonismo feminino às vésperas do golpe que deu lugar a 21 anos de regime ditatorial, esconde-se um poderoso aparato financeiro e logístico conduzido por civis e militares que tramavam contra Jango. Um detalhe: quase todos eram homens.
Leia também: Golpe de 64: saiba como o Ipês desestabilizava o governo Jango

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Certamente, a atuação de alguns grupos femininos como “pontas-de-lança” da opinião pública contra o governo Goulart foi peça-chave na conspiração levada a cabo pelo complexo empresarial-militar do Ipês-Ibad (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Destas instituições femininas, as principais eram: a carioca CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) e as paulistas UCF (União Cívica Feminina) e MAF (Movimento de Arregimentação Feminina).
Conforme disseca a historiadora Solange Simões em seu livro Deus, Pátria e Família: As mulheres no golpe de 1964, a inserção das mulheres na conspiração que resultou no golpe foi estratégica. Com o intuito de fomentar uma atmosfera de desestabilização política e convencer as Forças Armadas a intervir, as campanhas femininas buscavam dar "espontaneidade" e "legitimidade" ao golpismo, tendo sido as mulheres incumbidas — pelos homens — de influenciar a população.
Leia mais: 'Fortune' revela já em 64 elo entre empresários de SP e embaixada dos EUA no golpe
“Aqueles homens, empresários, políticos ou padres apelavam às mulheres não enquanto cidadãs, mas enquanto figuras ideológicas santificadas como mães”, escreve a pesquisadora. A própria dona Eudóxia, uma das lideranças femininas, reconhece, em entrevista à historiadora, sua função tática:
Nós sabíamos que como nós estávamos incumbidas da opinião pública, os militares estavam à espera do amadurecimento da opinião pública. Porque sem isso eles não agiriam de maneira nenhuma. A não ser que a opinião pública pedisse. E foi isso que nós conseguimos.
Graças a uma bem-sucedida ação, eventos considerados aparentemente “desconexos” foram tomados como "reações espontâneas" de segmentos da população. Na verdade, essas manifestações apresentavam uma sólida coordenação por parte da elite.
Reprodução/Blog CPDOC Jornal do Brasil

Protagonismo feminino? Mulheres estavam na linha de frente da marcha, mas quem dirigiu e organizou foram os homens do Ipês

Neste sábado (22/03), 50 anos depois, haverá uma reedição da emblemática marcha, organizada por manifestantes e ativistas que acreditam haver no Brasil uma revolução comunista em processo e veem na intervenção militar a única saída.
Veja abaixo os principais aspectos desse movimento feminino que esteve à frente da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” de 19 de março de 1964.
1.) COMO SURGIU E QUEM LIDERAVA?
Quem eram, afinal, essas mulheres que despontavam na rua, em passeatas e comícios, como “donas-de-casa” e “mães-de-família brasileiras”, envolvidas na conspiração civil-militar? Já chamadas de “guerrilheiras perfumadas” ou confundidas com mulheres “das classes médias”, as direções dos movimentos eram constituídas, essencialmente, por mulheres com baixa formação intelectual da burguesia e das elites militares e tecnoempresariais.
Essa ala feminina do golpe foi criada meses antes das eleições gerais de outubro de 1962. Suas principais líderes eram parentes próximas dos grandes nomes do setor empresarial e militar envolvidos na conspiração. Contaram, obviamente, com todo o aparato financeiro e logístico de seus cônjuges, primos e irmãos para erguer suas instituições. “O meu marido me incentivava: ‘Eu ajudo no que precisar’, dizia ele”, relembra em entrevista concedida a Solange Simões, a vice-presidente da CAMDE, Eudóxia Ribeiro Dantas, mulher de José Bento Ribeiro Dantas, empresário ipesiano presidente da Cruzeiro do Sul, uma das maiores companhias aéreas do país.
Leia também: Elite econômica que deu golpe no Brasil tinha braços internacionais, diz historiadora
Do lado carioca, por exemplo, a CAMDE foi criada por Amélia Molina Bastos, irmã do general Antônio de Mendonça Molina, do setor de informação e contrainformação do Ipês. A ideia partiu declaradamente do vigário de Ipanema, Leovigildo Balestieri, e dos líderes ipesianos engenheiro Glycon de Paiva e general Golbery do Couto e Silva. A CAMDE foi lançada no auditório do jornal O Globo, no Rio, oferecido por seu diretor-proprietário, Roberto Marinho. Na manhã do dia 12 de julho de 1962, o periódico carioca estampava na capa: “A Mulher Brasileira está nas Trincheiras”.
Já em São Paulo, nas reuniões de fundação da UCF, compareceram figuras como: Antonieta Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, diretor-proprietário do jornal O Estado de S.Paulo, e Regina Figueiredo da Silveira, primeira presidente da união paulista e irmã do banqueiro João Baptista Leopoldo Figueiredo, presidente do Ipês e primo do último presidente do ciclo militar.
2.) EM TERMOS PRÁTICOS, O QUE FIZERAM?
Desde sua fundação, a CAMDE carioca e a UCF paulista se engajaram na ação política de combate e desestabilização do governo Goulart, orientadas ideologicamente e materialmente pelo complexo Ipês-Ibad.
“Caravana a Brasília”: pelo veto a Santiago Dantas
Em 1962, as mulheres organizaram uma “Caravana a Brasília” com o objetivo de formar um efetivo “coro popular” para impedir a posse de San Tiago Dantas como primeiro-ministro. Esse movimento integrava parte da política de rejeição, pela elite, de uma composição com a ala moderada do trabalhismo. Para tanto, entregaram ao presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, 60 mil cartas pedindo a não aprovação do plebiscito antecipado, bem como o impedimento da delegação de poderes ao conselho de ministros, fundamental à continuidade das Reformas de Base do governo Goulart.
Reprodução/Mestrado Dharana Pérola Ricardo Sestini

A primeira-dama de SP, dona Leonor de Barros (cent.), ladeada pelos deputados Herbert Levy (últ. à dir.) e Cunha Bueno (penúlt. à dir.)

Boicote ao Última Hora, o “diário da guerra revolucionária”
Um dos poucos jornais que se atreveram a criticar a tentativa de deturpar o processo eleitoral por parte dessas organizações femininas, o Última Hora, de Samuel Wainer, foi sistematicamente perseguido pela CAMDE e UCF. Caracterizando o periódico como “o diário da guerra revolucionária que se travava no Brasil”, as senhoras passaram a formar comissões de visitas a empresários, industriais e comerciantes que anunciavam no jornal, pedindo para que suas verbas publicitárias fossem suspensas. A coordenação dessa campanha de boicote foi feita em grande parte em sincronia com o Ibad, liderado pelo integralista Ivan Hasslocher, outra figura central na campanha anti-Jango. Hasslocher se exilou em Genebra depois de comprovados, pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de 1963, os atos de corrupção de seu instituto no processo eleitoral de outubro de 1962.
"Marchas da Família com Deus pela Liberdade": quem convocou, dirigiu e financiou
Logo após o discurso de Goulart na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, a CAMDE se engajou em campanhas por telefone, incitando as mulheres a permanecerem em casa e acenderem velas em suas janelas como sinal de protesto e fé cristã. A massiva “Cruzada do Rosário em Família”, do padre norte-americano Patrick Peyton, pároco de Hollywood, foi o ensaio-geral para as marchas anticomunistas de abril e março de 1964, fundadas no lema “A família que reza unida permanece unida”.
Seis dias depois do comício de Jango, em 19 de março, data em que se comemora o dia de São José, padroeiro da família, realizou-se em São Paulo a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, coroando o auge dos esforços das associações femininas orientadas pelo Ipês.
["Marcha da Família com Deus pela Liberdade" percorre o Viaduto do Chá, no centro de São Paulo]
A marcha reuniu entre 500 mil e 800 mil pessoas para protestar contra o comício de Goulart na Central do Brasil. A idealização da marcha partiu do deputado federal Antônio Sílvio Cunha Bueno (PSD), um grande proprietário de terras e diretor da norte-americana Willys-Overland Motors do Brasil, cuja matriz ficou famosa pela fabricação, em parceria com a Ford, do jipe usado pelos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial. Ao contrário da propagandeada supervalorização do papel dessas mulheres na condução dos protestos, a organização da marcha não ficou a cargo nem da UCF nem do MAF, ambas entidades sediadas em São Paulo. Quem levou o evento adiante foi o próprio Cunha Bueno, além de outros políticos paulistas, como o vice-governador Laudo Natel, Roberto de Abreu Sodré (UDN) e Conceição da Costa Neves (PSD), deputada mais votada no estado nas eleições de 1962.
Leia: AI-5 já era debatido cinco meses antes, opondo Costa e Silva e presidente Médici
Acompanhados de suas esposas, políticos importantes se fizeram representar nas marchas: Adhemar de Barros e sua mulher, dona Leonor; além de Carlos Lacerda, governador do Rio, e dona Letícia. O deputado Herbert Levy, integrante da UDN e líder do Ipês, bradava: “o povo não quer ditaduras, o povo não quer comunismo, o povo quer paz e progresso”. Cunha Bueno discursava: “Todos vocês nessa praça representam a pátria em perigo de ser comunizada. Basta de Jango!”.
Em São Paulo, os banqueiros Hermann Morais Barros (Banco Itaú), Teodoro Quartim Barbosa (Comind) e Gastão Eduardo Vidigal (Banco Mercantil), líderes ipesianos do primeiro escalão, ficaram incumbidos de articular e obter adesão das entidades de classe de todo o país para as marchas.
“O Ipês de São Paulo também fez contribuições diretas e em dinheiro para o movimento feminino: consta do relatório de despesas de 1962 e do orçamento de 1963 uma contribuição mensal para a UCF”, conclui a historiadora Solange Simões.
A organização logística da marcha foi feita no prédio da Sociedade Rural Brasileira, supervisionada pelo Ipês e contando com a presença de membros de diversas entidades patronais e associações industriais. No bem aparelhado quartel-general do movimento feminino fizeram-se ainda pôsteres, cartazes e bandeiras com as seguintes palavras de ordem:
Abaixo o Imperialismo Vermelho
Renúncia ou Impeachment
Reformas sim, com Russos, não
Getúlio prendia os comunistas, Jango premia os traidores comunistas
Vermelho bom, só o batom
Verde, amarelo, sem foice nem martelo
Reprodução/Blog CPDOC Jornal do Brasil

Cartaz na marcha estampava "Vitória da Democracia"; golpe que derrubou presidente eleito viria semanas depois

3.) HOUVE PROTAGONISMO FEMININO?
Uma vez vitorioso o golpe de Estado de 1º de abril de 1964, foi deflagrada a chamada “Marcha da Vitória”, reunindo 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro. Logo no dia 3 de abril, o líder do Ipês João Baptista Leopoldo Figueiredo, que estava em reunião na Guanabara na qual discutiam a escolha do “novo candidato” à presidência, telefonou para sua irmã Regina Figueiredo Silveira, presidente da UCF. Motivo: o banqueiro primo-irmão do último presidente militar solicitava à irmã-ativista que o lançamento da candidatura de Castello Branco fosse feito pela própria UCF.
Paulo Ayres Filho, outro líder ipesiano e empresário da indústria farmacêutica, ficou incumbido de elaborar, junto com uma equipe da UCF, o manifesto feminino de apoio ao marechal, levado às estações de TV e jornais pelas senhoras.
O general Olympio Mourão Filho, que marchou de Minas Gerais em 31 de março, antecipando-se ao plano dos conspiradores do eixo Rio-São Paulo, comentou, sobre as marchas das mulheres, que “como todos os homens que participaram da revolução, nada mais fez do que executar aquilo que as mulheres pregavam nas ruas para  acabar com o comunismo”. Cordeiro de Farias foi ainda mais longe, de acordo com Solange Simões, “ao afirmar que a revolução foi feita pelas mulheres”.
Reprodução/Blog CPDOC Jornal do Brasil

Generais que participaram do golpe de 64 exergam protagonismo feminino como ponto central para o sucesso do movimento

Historiadores que estudaram o período são mais céticos: não veem a movimentação das mulheres como sintoma do engajamento universal da população brasileira no combate a Jango. Na verdade, essas mulheres, teriam funcionado como massa de manobra dos conspiradores — todos homens — para criar uma sensação de “espontaneidade” e “clamor popular” apta a dar “legitimidade” ao novo governo. Como aponta a pesquisadora Solange Simões, a marcha foi “ostensivamente uma manifestação das classes média e alta”. E mais: foi muito restrita, pois em uma cidade de 6 milhões de habitantes, como São Paulo, apenas 500 mil pessoas participaram.
Até o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, notório por seu apoio ao golpismo, percebeu a falta de apoio popular no movimento, conforme relata a Washington em um telegrama de 2 de abril de 1964: “A única nota destoante foi a evidente limitada participação das classes mais baixas na marcha”. Seu espião militar no Brasil, o coronel Vernon Walter também atesta que, até a realização das passeatas, havia um receio de que o movimento para derrubar João Goulart fracasse por falta de apoio popular.
Desferido o golpe em 1º de abril, as marchas do Rio e São Paulo foram seguidas de outras menores, organizadas pelas associações femininas em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Santos.
“Se antes os maridos enalteciam o papel de mãe e esposa para manter a mulher no lar e discriminadas na esfera pública, passam agora a enaltecer aquele papel para comprometê-la na ‘política’”, arremata Solange Simões. Assim, revelando o ilusório protagonismo vislumbrado pelo espetáculo dessas marchas de massivas mobilizações, “a ‘mulher-dona-de-casa’ que respeitava, no lar, a autoridade do chefe da família, deveria, enquanto mulher-cidadã procurar a autoridade do Estado – autoridade que residia principalmente no seu braço armado”, conclui a historiadora.
(*) Principais fontes: René Armand Dreifuss (‘1964: A conquista do Estado: Ação Política, Poder e Golpe de Classe’) e Solange de Deus Simões (‘Deus, Pátria e Família: As mulheres no golpe de 1964’)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Público dá as boas vindas ao IV Festival Sergipano de Teatro

Público dá as boas vindas ao IV Festival Sergipano de Teatro




Quando as três campainhas tocaram e as luzes do Teatro Tobias Barreto se apagaram, não restavam dúvidas: começava ali a temporada de espetáculos que já virou tradição no estado. Na noite desta quinta-feira, 27, o Festival Sergipano de Teatro entrou em cena pelo quarto ano consecutivo, e só descerá do palco no dia 13 abril. Na plateia, pessoas da capital, do interior e até mesmo turistas assistiram ao espetáculo que coroou a abertura do evento.


Estrelada pela atriz Alexandra Richter, a comédia “Minimanual de Qualidade de Vida” trouxe uma sátira sobre a falta de tempo na vida moderna. “Fique muito feliz de ser convidada para abrir um festival de teatro. Ver uma iniciativa dessas, de fomento e incentivo à cultura, e ainda por cima de graça, é muito importante. Isso é maravilhoso”, ressaltou Alexandra.


A educadora Tiara Regina mora em Aquidabã e compareceu ao festival pela primeira vez. Quando leu a sinopse da peça e soube que a entrada era gratuita, não perdeu tempo e veio para Aracaju. “Voltarei no dia 10 e irei trazer um grupo de idosos que não têm o hábito de ir ao teatro, para que eles possam conhecer a cultura local”, garantiu Tiara.


De férias na capital sergipana, o produtor cultural Romildo Alves é de Paulo Afonso (BA) e, mesmo assim, prestigiou as quatro edições do festival. “Acho superbacana isso de valorizar a cultura e oportunizar o acesso ao teatro e ao circo de forma gratuita”, comentou Romildo, que fica na cidade até segunda-feira e pretende ir a todas as apresentações do final de semana.


Aos 23 anos, o ator Allan Menezes é integrante do Coletivo Teatro de Mala, que tem apresentação marcada para o dia 10 de abril. Segundo ele, através do evento, o público amplia a visibilidade em torno das produções locais. “São espetáculos de qualidade. Por serem gratuitos, abrem a oportunidade para que as pessoas voltem mais vezes ao teatro”, explicou.


Estímulo à classe artística

O Festival Sergipano de Teatro é uma realização do Governo de Sergipe, através da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), em parceria com o Instituto Banese. O evento conta ainda com o apoio do RioMar Shopping e do Sindicato dos Artistas e Técnicos de Entretenimento em Sergipe (Sated/SE). Presente na cerimônia de abertura, que antecedeu o espetáculo, a secretária de Estado da Cultura, Eloísa Galdino, afirmou que a ação é fruto do diálogo entre o poder público e a classe artística.


“Construir uma política pública só teria consistência se ela fosse até os artistas para saber o que eles queriam. Este festival não é deste governo, nem de nenhum outro governo, este festival é do povo sergipano e dos artistas que fazem o teatro no estado”, destacou Eloísa, frisando que o projeto só foi possível graças à sensibilização dos gestores da área econômica do governo e ao processo de captação envolvendo a iniciativa privada.


O diretor de projetos do Instituto Banese, Marcelo Rangel, frisou a parceria do órgão em mais uma edição do evento. “Levar o festival para o Museu da Gente Sergipana é uma grande conquista”, disse Rangel, referindo-se as apresentações que acontecerão no Museu nos dias 10 e 11 de abril. Já o presidente do Sated/SE, Ivo Adnil, ressaltou que a quarta edição do festival era um anseio da classe. “O sindicato se orgulha de ter a frente do Governo de Sergipe uma gestão popular e democrática”, frisou.


Todas as apresentações do IV Festival Sergipano de Teatro serão gratuitas e acontecerão nos teatros Tobias Barreto, Atheneu e Lourival Baptista, no Museu da Gente Sergipana e no campus da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Laranjeiras. A maior parte dos espetáculos que serão apresentados durante a quarta edição do festival foi escolhida através de uma seleção pública, via edital. Confira a programação completa.

 27 de março
Minimanual de Qualidade de Vida
com Alexandra Richter / Texto: Ana Paula Botelho e Daniela Alcântara
Teatro Tobias Barreto | 20h | Classificação: 14 anos
28 de março
Ela esteve aqui
com Grupo A Tua Lona / Texto: Euler Lopes Teles
Teatro Atheneu | 19h | Classificação: 14 anos
29 de março
A Grande Serpente
com Grupo Imbuaça / Texto: Racine Santos
Teatro Tobias Barreto | 19h | Classificação: 16 anos


'A Grande Serpente' é montagem do grupo sergipano Imbuaça, que completou 36 anos de teatro popular
A peça será apresentada nesta terça-feira (25) em duas sessões no teatro Deodoro, às 17h e às 20h; os ingressos são gratuitos e podem ser retirados antes das apresentações
Divulgação Montagem foi premiada pela Funarte para circular pelas capitais nordestinas
Abides Oliveira Júnior/ ImbuaçaUm dos mais importantes grupos de teatro do Brasil, o Imbuaça, apresenta nesta terça-feira (25), no teatro Deodoro, o espetáculo “A Grande Serpente”. Serão duas apresentações, às 17h e às 20h, com entrada franca e ingressos entregues uma hora antes de cada apresentação.
As apresentações fazem parte da “circulação Nordeste” do espetáculo. Antes de Maceió, a peça já foi encenada em Natal, João Pessoa, Campina Grande, Recife e Caruaru. A circulação do espetáculo acontece graças ao prêmio de teatro Myriam Muniz 2013, da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
Com texto de Racine Santos e direção de João Marcelino, “A Grande Serpente” se passa em uma cidade imaginária do interior do Nordeste, isolada do mundo. Incesto, mistérios, crime e castigo.
A falta de água na cidade, com o poço que secou, não é outra coisa a não ser a punição pelo mau caminho, libertando assim a esfinge, ou por outra, a besta fera. E nela encontra-se a chave preciosa com a tragédia sofocliana.
A montagem, de João Marcelino, utiliza-se do universo ficcional para conduzir o público à reflexão sobre a questão do crime e castigo.
O diretor, que desde 1988 vem trabalhando com o Imbuaça, optou por um espaço lírico, circular, onde tudo ocorre.
Essa imagem conduz a plateia a mergulhar no universo da circularidade, que também representa o sentido da vida. Os figurinos impõem uma relação atemporal para uma situação que ocorre quase que constantemente no país.
“A Grande Serpente” estreou em 2010 e desde então foi também apresentada nas cidades de Aracaju, Rio de Janeiro, Cuiabá e Porto Velho. Com 36 anos de atividades cênicas, o grupo sergipano tem se destacado no cenário nacional pelas ações no teatro de rua, cuja pesquisa de linguagem é fundamentada na cultura popular.

30 de março
O Corcunda de Notre Dame
com Companhia de Artes Tetê Nahas/ Texto: Victor Hugo
Teatro Tobias Barreto | 17h | Classificação: Livre


Musical “O Corcunda de Notre Dame”
Apresentação acontece no dia 30, a partir das 17h
Musical “O Corcunda de Notre Dame(Foto: divulgação)
Os sergipanos terão a oportunidade de prestigiar gratuitamente, neste domingo, 30, às 17h, o musical “ O Corcunda de Notre Dame”, produzido pela Companhia das Artes Tetê Nahas, no Teatro Tobias Barreto. O espetáculo foi contemplado pelo Prêmio Myriam Muniz 2013 da Funarte/ Ministério da Cultura e selecionado pela comissão do IV Festival Sergipano de Teatro, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura em parceria com o Instituto Banese.

A apresentação faz parte da Turnê Nacional que está sendo promovida pela Companhia das Artes Tetê Nahas graças ao patrocínio do Ministério da Cultura. O grupo já esteve no início do mês em Maceió, se apresenta em Aracaju e segue para São Luis do Maranhão, no dia 04 de abril.
“Fomos convidados para integrar a programação da Semana de Teatro de São Luis do Maranhão e vamos nos apresentar no belíssimo Teatro Arthur Azevedo, além de ministrar oficina. Estou muito feliz por estar novamente levando a arte de Sergipe para o país, de forma gratuita graças ao apoio da Funarte e neste caso do governo do Maranhão”, informou a diretora geral da Companhia, a atriz e bailarina Tetê Nahas. O grupo é formado por 23 atores que dançam, cantam e interpretam a história.
O espetáculo
“O Corcunda de Notre Dame”, musical adaptado do texto de Victor Hugo, é uma aventura que fala de amor, amizade e respeito, além de preconceitos existentes na sociedade. São 23 atores, que além do texto, cantam belas canções (ao vivo) e executam coreografias. Em Paris, durante a Idade Média, viveu Quasímodo, um corcunda que mora enclausurado, desde a infância, nos porões da catedral de Notre Dame.

Um dia, Quasímodo decide sair da escuridão em que vive e conhece Esmeralda, uma bela cigana por quem se apaixona. Mas para conseguir concretizar seu amor ele terá que enfrentar o poderoso Claude Frollo, e seu fiel ajudante, Febo.

“Nossa proposta é unir teatro, dança e música numa só pulsação. A montagem do Corcunda promete momentos de aventura, riso e lágrimas. Não podemos parar de discutir aquilo que está calado. Vim e estou querendo burlar, mexer… estou querendo discutir da melhor forma, discutir com arte, levando o debate com muita alegria aquilo que o mundo precisa ver, reconhecer e acreditar”, explicou Tetê Nahas.
Com informações da Assessoria de Imprensa
30 de março
O Natimorto – Um Musical Silencioso
com Grupo Caixa Cênica / Texto: Lourenço Mutarelli
Teatro Lourival Batista | 19h | Classificação: 16 anos
3 de abril
Minha Vida, Meu Bolero
com Walmyr Sandes/ Texto: Hunald Alencar
Teatro Lourival Batista | 19h | Classificação: 16 anos
4 de abril
Deixe-me-a-ma-la
com Cia. Gentileza de Artes Integradas – CIGARI / Texto: Roney David
Teatro Atheneu | 16h | Classificação: Livre
4 de abril
A Mais Forte
com Cia. de Teatro Cobras e Lagartos / Texto: Augusto Strindberg
Teatro Atheneu | 19h | Classificação: 12 anos
05 de abril
Monólogos desagradáveis
com Cia.Teatral Kasa da Imaginação / Texto: Raimundo Venâncio
Teatro Atheneu | 19h | Classificação: 16 anos
06 de abril
As asas de um anjo
com Cia. De Teatro Itapoart's / Texto: José de Alencar
Teatro Lourival Batista | 16h | Classificação: Livre
06 de abril
Fuga ao passado
com Ivo Adnil / Texto: Sigmund Freud
Teatro Lourival Batista | 19h | Classificação: 16 anos
10 de abril
Um, dois, três, Kabummm!
com Cia. O Mínimo de Teatro e Circo /Texto: Rafael Barreiros
Museu da Gente Sergipana | 15h | Classificação: Livre
10 de abril
O Grande circo do mundo
com Coletivo Teatro de Mala / Texto: Ewertton Nunes
Museu da Gente Sergipana | 17h | Classificação: Livre
10 de abril
Folcloriando na Terra do Caju
com Cia. De Teatro HistoriaEncena / Texto: Lina Regina Nunes
Teatro Lourival Batista | 19h | Classificação: 12 anos
11 de abril
Boca em-cena, folhetins em cordel: João Firmino um poeta nordestino
com Grupo Teatral Boca de Cena / Texto: Rogério Alves
Museu da Gente Sergipana | 16h | Classificação: Livre
11 de abril
Uma canção de rebeldia
com Coletivo Teatro de Mala / Texto: Ewertton Nunes
Teatro Lourival Batista | 19h | Classificação: 14 anos
11 de abril
Cabaret dos Insensatos
com Cia de Artes e Cultura Stultifera Navis / Texto: Lindemberg Monteiro
Campus da UFS de Laranjeiras | 20h | Classificação: 18 anos
12 de abril
Viagem na Argila
com Coletivo Artístico Nosnaestrada / Texto: Jozailto Lima
Teatro Lourival Batista | 19h | Classificação: 14 anos
13 de abril
Os Saltimbancos
com Eitcha Companhia de Teatro / Texto: Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov
Teatro Tobias Barreto | 16h | Classificação: Livre


A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?
Eliane Brum*

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada...”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

 - Você é evangélico? – ela perguntou.

 - Sou! – ele respondeu, animado.

 - De que igreja?

 - Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.

- Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?

- Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.

- Legal.

- De que religião você é?

- Eu não tenho religião. Sou ateia.

- Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.

- Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.

- Deus me livre!

- Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.

- (riso nervoso).

- Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?

- Por que as boas ações não salvam.

- Não?

- Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.

- Mas eu não quero ser salva.

- Deus me livre!

- Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.

- Acho que você é espírita.

- Não, já disse a você. Sou ateia.

- É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.

- Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?

- É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto...

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

- Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.

- Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.

Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa. 

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

*Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. elianebrum@uol.com.br 
 
Fonte segunda:  http://almocodashoras.blogspot.com.br/2014/03/a-dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada.html

quarta-feira, 26 de março de 2014

PÁGINA INFELIZ DA NOSSA HISTÓRIA - A pedido de Erundina, Câmara terá sessão para homenagear resistência à ditadura

ato solene

por Redação RBA publicado 25/03/2014 18:31, última modificação 25/03/2014 18:56
J.Batista/câmara dos deputados
reunião de líderes
Decisão de realizar uma sessão solene foi unânime na reunião de líderes realizada nesta terça-feira
São Paulo – A Câmara vai acolher requerimento da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) para realização de sessão solene para discutir a ditadura (1964-1985). O ato homenageará “civis e militares que resistiram à ditadura” e deverá ser “consagrado à reflexão sobre o significado da luta pela democracia e sobre a herança autoritária ainda por enfrentar e superar plenamente em nosso país”, conforme detalha o requerimento aprovado. A decisão foi tomada hoje (25) em reunião dos líderes partidários.
A deputada sugeriu ainda que a Câmara promova, em 2014, o “ano da democracia, da memória e do direito à verdade", com vários eventos para lembrar o período sombrio da ditadura. Outras atividades também estão sendo organizadas pelos partidos progressistas e movimentos sociais.
Já requerimento do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) para a realização da sessão solene foi indeferido pelo presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Ele disse que não poderia acolher um requerimento “para exaltar a ditadura”. Bolsonaro alegou que o regime instaurado em 1964 teve amplo apoio social e “que possibilitou, ao longo de 20 anos, a consolidação da democracia”.
“A Câmara não pode homenagear um regime que fechou três vezes esta Casa e cassou 173 parlamentares”, disse Alves pela sua conta no Twitter, destacando que sua decisão teve apoio integral dos líderes.

A cultura e as artes no regime militar

A cultura e as artes no regime militar
50 anos do golpe


Assista vídeos sobre a ditadura militar.. AQUI





MARCO CIVIL DA INTERNET APROVADO NA CÂMARA..MAIS DEMOCRACIA!! MAIS INOVAÇÃO! MAIS SEGURANÇA PARA O CIDADÃO!


Plenário aprova marco civil da internet

Portal EBC*25.03.2014 - 18h02 | Atualizado em 25.03.2014 - 22h14
 
O Plenário aprovou, simbolicamente, o Marco Civil da Internet (PL 2126/11, do Executivo), que disciplina direitos e proibições no uso da internet, assim como define os casos em que a Justiça pode requisitar registros de acesso à rede e a comunicações de usuários. O texto agora segue para o Senado e, caso seja aprovado lá também, deverá ir para sanção presidencial.
“Hoje em dia precisamos de lei para proteger a essência da internet que está ameaçada por praticadas de mercado e, até mesmo, de governo. Assim, precisamos garantir regras para que a liberdade na rede seja garantida", disse o relator do projeto deputado Alessandro Molon (PT-RJ).
Antes da votação, um grupo de manifestantes entregou ao presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), uma petição com mais de 340 mil assinaturas a favor do Marco Civil da Internet. Na ocasião, Alves disse que o projeto já estava "amadurecido" para ir à votação.
Conheça os principais pontos do Marco Civil da Internet
O texto teve modificações, que foram formuladas após negociações entre partidos. Um dos pontos do substitutivo foi o fim da exigência do uso de data centers no Brasil para armazenamento de dados. A obrigatoriedade havia sido incluída após as denúncias de espionagem do governo brasileiro, por parte dos Estados Unidos, revelados pelo ex-consultor que prestava serviços à Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) norte-americana, Edward Snowden. Como forma de punição para a violação das comunicações, ficou assegurado no texto que deverá ser “obrigatoriamente respeitada a legislação brasileira”.
Em relação à neutralidade da rede, ficou acordado que a regulamentação por decreto deverá seguir os parâmetros estabelecidos na lei, conforme previsto na Constituição. Para regulamentar a neutralidade de rede, a Presidência da República deverá ouvir a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o Comitê Gestor da Internet (CGI).
Confira o vídeo sobre a aprovação do Marco Civil:
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Outra mudança foi feita no artigo que trata da retirada de material com cenas de sexo ou nudez sem a autorização das pessoas envolvidas. O relator deixou claro que o pedido de retirada deve ser apresentado pela pessoa vítima da violação de intimidade e não pelo ofendido, o que poderia dar interpretação de que qualquer pessoa ofendida poderia pedir a retirada do material.
Agora, os provedores não poderão fornecer a terceiros as informações dos usuários, a não ser que haja consentimento do internauta; os registros constantes de sites de buscas, os e-mails, entre outros dados, só poderão ser armazenados por seis meses. O projeto também define os casos em que a Justiça pode requisitar registros de acesso à rede e a comunicações de usuários.
Antes da votação, o governo recuou e aceitou alterar alguns pontos considerados polêmicos por parlamentares da oposição e da base aliada. O principal deles é o princípio da neutralidade de rede que assegura a não discriminação do tráfego de conteúdos. Após negociação os deputados acordaram que a regulamentação deste trecho da lei caberá a um decreto da Presidência da República, depois de consulta à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI)
“Felizmente, o governo recuou e o relator acatou a sugestão da oposição e retirou do texto a obrigatoriedade de datacenters no território brasileiro”, disse o líder do DEM, Mendonça Filho (PE).
Outro ponto do projeto é o que isenta os provedores de conexão à internet de serem responsabilizados civilmente por danos decorrentes de conteúdos gerados por terceiros. Isso só ocorrerá se, após ordem judicial específica, o provedor não tomar as providências para retirar o conteúdo da rede.
Além disso, o relator também incluiu um artigo para prever que os pais possam escolher e usar programas de controle na internet para evitar o acesso de crianças e adolescentes a conteúdo inadequado para a idade. “O usuário terá a opção de livre escolha da utilização de controle parental em seu terminal e caberá ao Poder Público em conjunto com os provedores de conexão a definição de aplicativos para realizar este controle e a definição de boas práticas de inclusão digital de crianças e adolescentes”, discursou Molon.
Após diversas negociações, o governo conseguiu com que os partidos contrários ao marco civil mudassem de ideia. O PPS foi o único partido que votou contra o projeto. O PMDB que era contra a proposta, mudou de opinião e defendeu a aprovação. "Continuo com uma parte do receio de que a internet chegou onde chegou por falta de regulação", disse o líder do partido na Casa, Eduardo Cunha (RJ), que justificou a mudança de postura como fruto de negociações do governo e da alteração de pontos considerados polêmicos no texto.  "O PMDB vai se posicionar favoravelmente ao projeto", completou.
A aprovação do Marco Civil da Internet foi vista como uma vitória pelo líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). "Eu acho que é uma vitória porque nós vivemos momentos variados, o mínimo que eu posso dizer sobre esta matéria é que houve tensões. A paciência e determinação em buscar através de um diálogo independente de quem quer que seja, isso é uma grande vitória", disse Chinaglia.
*Com informações da Câmara dos Deputados
  • Direitos autorais: Creative Commons - CC BY 3.0
Pessoal, tivemos uma sessão histórica na Câmara com a aprovação do Marco Civil da Internet! Foram três anos de muita luta à espera deste resultado. Hoje, podemos comemorar esta que é uma  vitória dos internautas do Brasil e do mundo! Os pilares do projeto não só foram preservados, como reforçados em comparação ao texto originalmente enviado à Câmara. O Brasil dá um passo decisivo na proteção dos direitos dos internautas. O meu muito obrigado a todos que participaram da elaboração do Marco Civil enviando sugestões e opiniões. Valeu a todos que apoiaram e acompanharam essa caminhada! Agora, é esperar a rápida aprovação no Senado e, depois, a sanção presidencial. Pela Internet livre, democrática, segura e aberta à inovação!

 Pessoal, tivemos uma sessão histórica na Câmara com a aprovação do Marco Civil da Internet! Foram três anos de muita luta à espera deste resultado. Hoje, podemos comemorar esta que é uma vitória dos internautas do Brasil e do mundo! Os pilares do projeto não só foram preservados, como reforçados em comparação ao texto originalmente enviado à Câmara. O Brasil dá um passo decisivo na proteção dos direitos dos internautas. O meu muito obrigado a todos que participaram da elaboração do Marco Civil enviando sugestões e opiniões. Valeu a todos que apoiaram e acompanharam essa caminhada! Agora, é esperar a rápida aprovação no Senado e, depois, a sanção presidencial. Pela Internet livre, democrática, segura e aberta à inovação!
Vencemos! Marco Civil aprovado na Câmara (agora a matéria segue pro Senado)! Teremos uma internet neutra, livre e segura para tod@s; e nossa bancada batalhou bastante para isso! Parabéns à sociedade civil organizada e aos especialistas que contribuíram para a construção desse Marco Civil! Parabéns a Alessandro Molon, relator, que soube conduzir bem o processo (apenas o PPS votou contra! ). Parabéns a tod@s nós! (Ivan Valente, Chico Alencar e Jean Willys)

Vai ser um show de POP ROCK dos melhores! Minho San Liver em 'QUE A GENTE NÃO DESPEDACE''




segunda-feira, 24 de março de 2014

Joan Baez tira Geraldo Vandré da toca e reaviva canções de protesto

Primeira turnê da cantora no Brasil mostra uma intérprete no auge de seu domínio vocal

23 de março de 2014 | 20h 53

O Estado de S. Paulo
Jotabê Medeiros -
Vandré e Baez se encontram em show, em São Paulo - Jotabê Medeiros/Estadão
Jotabê Medeiros/Estadão
Vandré e Baez se encontram em show, em São Paulo
Estão esgotados os ciclos dos governos militares na América Latina, mas domingo à noite, na Barra Funda, parecia que a canção de protesto era a música da moda. Entoados pela diva folk e ativista norte-americana Joan Baez, em show no Teatro Bradesco, canções como Gracias a La Vida (Violeta Parra), Cálice (Chico Buarque) e Deportees (Pete Seeger) deram o ar de sua graça, como se os anos de chumbo tivessem voltado – e orgulho da resistência também.
Mas o mais emocionante foi quando o hino maior dos opositores do regime militar, Para Não Dizer Que Não Falei de Flores (Geraldo Vandré) foi cantado em coro pela plateia. Detalhe: com a presença do próprio Vandré, de 78 anos, um notório misantropo, no palco. “Eu vou convidar para subir ao palco um mito. Ele não gosta disso, prefere ser somente um homem. Ele virá aqui, mas não vai cantar, vai ficar do meu lado”, disse Joan Baez.
Vandré entrou sob aplausos demorados, toda a plateia em pé. De temperamento arredio, quase invisível na cidade de São Paulo há quatro décadas, o cantor e compositor não grava um disco desde 1971. Foi Vandré quem tomou a iniciativa de procurar a cantora. Por intermédio de um amigo comum, ele contatou o repórter do Estado com um recado: queria encontrar-se com ela e lhe propor a gravação de um disco em espanhol. Foi feita a ponte com a produção, que agendou o encontro. Os dois se avistaram pela primeira vez domingo, às 14 h, e Joaz insistiu para que ele cantasse com ela, mas não teve jeito.
De preto, com uma echarpe vermelha, silhueta esguia, Joan Baez trouxe também o Verão do Amor de volta, cantando duas canções que interpretou em agosto de 1969: Swing Low, Sweet Chariot e Joe Hill. A primeira, ela disse, tornou-se uma canção que “cantamos quando marchamos, quando oramos, nas igreja, nas ruas”. E soltou sua voz de soprano pela arcada do teatro, um momento excepcional.
É o primeiro show da cantora no Brasil - ela foi proibida de se apresentar em 1981 pela ditadura. O espetáculo, mais do que tudo, mostrou uma intérprete de grande refinamento e no auge de sua potência vocal aos 73 anos. Em músicas como La Llorona e Diamonds and Rust (Joan Baez), alcança sofisticação interpretativa ímpar. Mesmo nos clichês, como The House of Rising Sun, o resultado é primoroso. Ao lado dela, o multi-instrumentista Dirk Powell (que toca acordeão, violino, banjo, violão baixo, piano) cria belas almofadas sonoras para o canto de suave dramaticidade de Joan espalhar-se pela plateia. Foi fantástico o número dos dois juntos no bluegrass Cornbread (que ela já interpretou também com Marcos Mumford, do grupo Mumford & Sons).
Joan Baez ainda fez a festa dos locais com canções tradicionais brasileiras, como o xaxado Mulé Rendera (Zé do Norte) e a marchinha Acorda Maria Bonita, sucessos eternos nas versões de Luiz Gonzaga. No limiar das linguagens, entre o folk e o forró, acabou inventando um ramo alternativo, o “folkrró”. Foi delicada ao convidar a assistente de palco, Grace, para cantar consigo. "Ela cuida dos meus violões, dos meus pijamas. E também canta", disse.
Do ex-namorado, Bob Dylan, ela cantou Farewell Angelina e It’s All Over Now, Baby Blue

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 O som não é bom, as imagens também (estava muito longe), mas vale pelo registro. Joan Baez cantando "Caminhando" em português no Teatro Bradesco em São Paulo com Geraldo Vandré no palco, no dia 23/03/2014, é histórico.



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 Joan Baez canta 'Cálice' com Gilberto Gil e Milton "Bituca" Nascimento três décadas depois de sua primeira visita ao Brasil, na qual foi impedida de cantar pelo regime militar de exceção instaurado em 1964, musa da canção folk política presta contas com o passado!

http://youtu.be/uh7Gyy872Is

Joan Baez, Milton Nascimento e Gilberto Gil - Cálice

https://www.youtube.com/watch?v=R9cpBML9SoE
Joan Baez - Sweet Sir Galahad

https://www.youtube.com/watch?v=2MSwBM_CbyY
Joan Baez Diamonds and Rust

A cantora Joan Baez estave em cartaz neste final de semana, em São Paulo. Na primeira vez que veio ao Brasil, em 1981, Joan foi proibida de cantar e se encontrou com Lula, então presidente do Partido dos Trabalhadores.

http://bit.ly/1d8hYds




Foto de meu reencontro com a cantora Joan Baez, depois de 33 anos que não nos víamos. Um momento memorável compartilhado com meus queridos filhos João e Eduardo, o Supla. (Senador Eduardo Suplicy)

Leia também

   http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/03/1429831-joan-baez-recebe-geraldo-vandre-e-suplicy-em-show-em-sao-paulo.shtml 

 http://caras.uol.com.br/musica/apos-quatro-decadas-geraldo-vandre-retorna-aos-palcos-em-show-de-joan-baez#.UzBUPFyPcpE

Oscar Romero. 34 anos depois. "El Salvador, um país dividido". Entrevista especial com Juan Hernández Pico






“A hierarquia salvadorenha, hoje, não está à altura de Romero. Durante 13 anos, tivemos até um arcebispo do Opus Dei. Mas simplesmente não há figuras episcopais desse porte. É o ‘legado’ das nomeações de João Paulo II e Bento XVI”, avalia o teólogo.

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Foto: Wikipedia
“Um símbolo da opção preferencial pelos pobres da Igreja até hoje.” É assim que o arcebispo de San Salvador, Óscar Romero, é lembrado pelo teólogo Juan Hernández Pico e alguns setores da Igreja, 34 anos depois da sua morte. Assassinado por um atirador do exército salvadorenho em 24 de março de 1980, enquanto celebrava uma missa, Romero está entre os mártires da Igreja latino-americana moderna, que atuaram politicamente para combater as injustiças sociais do continente.
De acordo com Pico, Romero é lembrado em seu país de muitas maneiras, e nas paróquias populares é considerado “o maior santo”. Em outros setores católicos, entretanto, “sua figura é vista politicamente como nefasta”. O arcebispo salvadorenho ficou conhecido por denunciar as violações dos direitos humanos em El Salvador em suas homilias dominicais e por apoiar as vítimas da violência política durante a Guerra Civil de El Salvador.
El Salvador é o menor país da América Central em termos geográficos, um dos três países latino-americanos com menor crescimento econômico e enfrenta problemas sociais relacionados à violência e ao narcotráfico. Na última semana, o país elegeu o novo presidente, Salvador Sánchez Cerén, que já havia ocupado cargos do governo em outras ocasiões. Na avaliação de Pico, a eleição do ex-guerrilheiro demonstra que a população “conseguiu superar a ‘auréola’ guerreira que, em outras eleições, acompanhava os ex-comandantes guerrilheiros (Facundo Guardado e Shafic Jorge Handal perderam fortemente como candidatos a presidente em 1999 e em 2005)”. Cerén foi eleito com 50,11% dos votos, o que demonstra que “o país está dividido”, disse Juan Hernández Pico à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail. Para ele, “nenhum dos candidatos poderia governar sem uma aliança”. Essa eleição, portanto, “talvez seja a oportunidade para voltar ao espírito dos acordos de paz, recuperá-lo e propor um plano conjunto de nação. Não vai ser fácil superar os extremistas de ambos os partidos, sobretudo os direitistas da Aliança Republicana Nacionalista, que ainda cantam um hino que diz que ‘a liberdade é escrita com sangue’”.
Juan Hernández Pico é teólogo e professor da Universidade Centro-Americana (UCA). Dedica sua vida ao trabalho pastoral entre as comunidades pobres na Guatemala, Nicarágua e El Salvador, muitos dos quais sofreram a violência da guerra civil. Antes de lecionar na UCA, Pico viveu na paróquia de La Natividad, na Guatemala, onde desenvolvia um trabalho pastoral com as comunidades indígenas maias. É autor de várias obras, entre elas, O cristianismo vivo: reflexões teológicas da América Central.



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Foto: XXII aniversario de los mártires de la UCA
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Hoje, dia 24 de março, faz 34 anos do assassinato de Óscar Romero. Como ele é lembrado em El Salvador?
Juan Hernández Pico – Romero é lembrado de muitas maneiras. Em quase todas as paróquias populares, ele é o maior "santo". Espera-se que o Papa Francisco o canonize. Há alguns setores católicos da alta classe em que a sua figura é vista politicamente como nefasta. Não devemos nos esquecer de que a Comissão da Verdade, que procede dos Acordos de Paz, assinalou o fundador do partido de direita Arena, o major Roberto D'Aubuisson, como autor intelectual do seu assassinato. Anualmente, no sábado anterior ao aniversário do assassinato, realiza-se uma peregrinação da Plaza del Salvador del Mundo, onde há uma estátua de Romero, até a Catedral, onde se celebra uma Eucaristia com a maior parte dos bispos do país e, depois, há uma vigília festiva. Neste governo, colocou-se um mural sobre Romero no aeroporto, e batizou-se com o nome de Romero a rodovia mais importante da cidade. Na Universidade Centro-Americana – UCA, conserva-se a sua memória estudando-se a sua teologia e o que ele significou para a Igreja e para o país. Jon Sobrino escreve muito sobre ele.
IHU On-Line - Qual o legado de Romero para a Igreja salvadorenha?
Juan Hernández Pico – O legado de Romero é a figura de um dos Padres da Igreja Latino-Americana moderna e, além disso, mártir à altura de Manuel Larraín, Samuel Ruiz, Helder Câmara, Angelelli, etc. A Hierarquia salvadorenha hoje não está à altura de Romero. Durante 13 anos, tivemos até um arcebispo do Opus Dei. Mas simplesmente não há figuras episcopais desse porte. É o "legado" das nomeações de João Paulo II e Bento XVI.
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“Ainda são muitos os salvadorenhos que precisam emigrar para encontrar trabalho”

IHU On-Line - As lutas de Romero ainda são atuais considerando o contexto social e político de El Salvador? Ainda há reflexos de sua luta na sociedade salvadorenha?
Juan Hernández Pico – Sem dúvida, Romero é um símbolo da opção preferencial pelos pobres da Igreja até hoje.
IHU On-Line - Como vê o anúncio da canonização de Romero? Como a Igreja salvadorenha recebe a notícia?
Juan Hernández Pico – Na Igreja salvadorenha, há uma pequena parte que desejaria que Romero nunca fosse canonizado. Há outra pequena parte que desejaria que ele fosse canonizado como confessor: "Um grande sacerdote destacado pelo seu magnífico desempenho sacerdotal". A grande maioria espera a sua canonização como mártir, o mais rápido possível, e às vezes há decepção com o longo tempo de espera. Sabe-se que a Congregação da Fé há muito tempo aprovou a catolicidade de todos os seus escritos. Espera-se que Francisco mova a canonização de Romero com rapidez. Esse seria o sinal que o consagraria, assim como indicam outros sinais.
IHU On-Line - Pode nos dar um panorama da situação política e social de El Salvador entre os anos 1980, quando Romero foi assassinado, aos dias de hoje, 34 anos depois? O que mudou na sociedade salvadorenha ao longo desse tempo?
Juan Hernández Pico – Os acordos de paz assinados em 15 de janeiro de 1992, com o impulso recebido pelo martírio dos jesuítas da UCA, que tirou legitimidade de um triunfo militar das Forças Armadas, propiciaram 22 anos de democracia representativa bastante sensata. Desde que a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional - FMLN ganhou as eleições em 2009, conseguiu-se até uma Sala de lo Constitucional [câmara constitucional] (parte da Suprema Corte de Justiça) independente. O fato de que a FMLN vai repetir um mandato presidencial e com um líder guerrilheiro como candidato e presidente eleito diz algo sobre as possibilidades dessa democracia. No entanto, faltam mudanças econômicas sérias.
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“O narcotráfico é muito mais perigoso do que as maras”

El Salvador é um dos três países latino-americanos com menor crescimento econômico anual médio, e a iniciativa privada e os grandes capitais investem preferencialmente (embora não unicamente) fora do país, na economia global. Ainda são muitos os salvadorenhos que precisam emigrar para encontrar trabalho, por exemplo.
IHU On-Line - Como ocorreu o debate eleitoral entre os dois principais candidatos à Presidência da República de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén e Norman Quijano? Em que consistiam as propostas políticas de ambos e qual, na sua avaliação, é mais eficaz para governar El Salvador?

Juan Hernández Pico – Infelizmente, a campanha eleitoral não debateu projetos sérios de nação. A segurança monopolizou os debates. Sim, a campanha foi muito tranquila e cortês por parte dos candidatos da FMLN. Foi muito dura e, às vezes, criadora de ódio por parte dos candidatos da Arena.
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“A violência é muito mais forte entre os narcotraficantes. E muito mais financiada, evidentemente”

IHU On-Line - Quem é o atual presidente de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén?
Juan Hernández Pico – Salvador Sánchez Cerén é um homem de 69 anos, educador de profissão. Uniu-se no início dos anos 1970 às organizações guerrilheiras, depois de ter militado como professor sindicalista. Foi o comandante de uma das cinco organizações político-militares que se uniram para formar as Forças Populares de Libertação - FMLN. Foi vice-presidente da República durante o governo do presidente Funes e ministro da Educação, um dos dois ministros mais bem considerados nas pesquisas de opinião pública. É uma pessoa inteligente, gentil e também capaz de diálogo. Uma das coisas que essas eleições mostraram é que El Salvador conseguiu superar a "auréola" guerreira que, em outras eleições, acompanhava os ex-comandantes guerrilheiros (Facundo Guardado e Shafic Jorge Handal perderam fortemente como candidatos a presidente em 1999 e em 2005). Além disso, ele foi acompanhado como candidato a vice-presidente por alguém muito mais jovem, um prefeito no cargo, reeleito como prefeito em uma grande cidade por três vezes (ou seja, eleito quatro vezes).
IHU On-Line - Cerén foi eleito com 50,11% dos votos. Qual o significado dessa votação tão acirrada? A população estava muito dividida?
Juan Hernández Pico – O país está dividido. Nenhum dos candidatos poderia governar sem uma aliança. Talvez seja a oportunidade para voltar ao espírito dos acordos de paz, recuperá-lo e propor um plano conjunto de nação. Não vai ser fácil superar os extremistas de ambos os partidos, sobretudo os direitistas da Aliança Republicana Nacionalista, que ainda cantam um hino que diz que “a liberdade é escrita com sangue”.
IHU On-Line - O que são os Mara Salvatrucha e como eles têm atuado em El Salvador e na América Central? Por quais razões o grupo tem conseguido se manter desde os anos 1980?
Juan Hernández Pico – Essa pergunta é bastante complexa. Originalmente, as maras ou quadrilhas juvenis foram importadas das ruas de Los Angeles por jovens salvadorenhos deportados. Hoje, o que era um jogo violento provavelmente se tornou uma dependência do tráfico de drogas. O narcotráfico é muito mais perigoso do que as maras. Ainda mais quando tenta passar despercebido por trás da máscara das quadrilhas, às quais se atribui toda a violência. A violência é muito mais forte entre os narcotraficantes. E muito mais financiada, evidentemente. Enquanto não houver políticas de emprego sérias, não vai ser fácil começar a resolver o problema das quadrilhas. Eu acho que os problemas das favelas pode fazer com que vocês entendam melhor o que acontece aqui.
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“Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, estão construindo uma dinastia à la Somoza”

IHU On-Line - A que atribui a reeleição do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, em 2011?
Juan Hernández Pico – Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, conseguiram ter nas suas mãos todas as instituições do país. Eles dominam o Tribunal Superior Eleitoral e a Suprema Corte (inconstitucionalmente, eles mantêm em seus cargos juízes que já acabaram os seus períodos há anos); dominam a Assembleia Legislativa e por isso puderam mudar a Constituição; dominam a Polícia Nacional e acabam de mudar o código militar como ferramenta para dominar o Exército. Por outro lado, eles têm um voto duro que remonta à década revolucionária dos anos 1980 e agem com os pobres de forma populista, não os tirando estruturalmente da pobreza, mas mantendo-os dependentes das dádivas do Estado. Desfrutaram de mais de 3,5 bilhões de dólares, vindos do chavismo venezuelano e que não estiveram sujeitos a aparecer no orçamento, mas são administrados pela família presidencial. Eles estão construindo uma dinastia à la Somoza.
IHU On-Line - Quais são os principais dilemas sociais e políticos dos países da América Central?

Juan Hernández Pico – O principal problema da América Central é a sua fragmentação em "paisinhos". Se se conseguisse a Integração Centro-Americana, seríamos o quinto grupo populacional da América Latina (depois do Brasil, México, Argentina e Colômbia). Junto com o Panamá, teríamos entre 43 e 44 milhões de habitantes. Mas assim temos seis grupos oligárquicos defendendo direitos de minorias, seis exércitos, seis polícias, 12 aduanas territoriais. Uma confusão. O fato de ser um corredor do narcotráfico aumenta os nossos problemas. E principalmente a posição geoestratégica de corredor de acesso à água da bacia amazônica, que não pode ser deixada nas mãos de qualquer um.
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